Fantástico - Vai fazer o quê?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Esperando Beckett

Samuel Beckett (1906-1989) fez da metáfora ferramenta de corte lento e profundo em sua obra. A húngara Ágota Kristof parece ter se embriagado das letras do irlandês para escrever a cômica John & Joe, em cartaz no Espaço Trama. A peça dirigida por Eid Ribeiro é perfeitamente sustentada por jogo simples de comparações subentendidas. O alinhamento das significações não está apenas na tradução de Aryanne Perrottet e Joaquim Elias. Está, principalmente, no desenho e na condução dos atores no tablado. Não só o público iniciado está à espera de Godot na plateia. O espectador comum também se mantém, por uma hora, na absorção do que não pode ser visto.

Eid Ribeiro, conhecedor dos teatros do mundo (como um dos responsáveis pela seleção das montagens que participam do Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte, o FIT), já há algum tempo vem trazendo à cena mineira olhar bastante incomum. Para citar apenas três de seus trabalhos mais impressionantes, fizeram história Fim de jogo (1988), de Beckett, Álbum de família (1990), de Nelson Rodrigues – trabalho divisor de águas na carreira do Grupo Galpão –, e Circo Bizarro (1995), com textos do espanhol Fernando Arrabal. Em comum, além de notável habilidade para orientar seus agregados, mise-en-scène apurado e invejável vocação para as entrelinhas. Em John & Joe, com o Grupo Trama, Eid levanta mais um espetáculo primoroso em desenho, conteúdo e interpretação.

O roteiro é tão singelo quanto eficiente: dois amigos, um garçom e um bar. John e Joe estão para o bar assim como estão para o garçom. E o bar está para o garçom assim como para John e Joe. Justificam-se simplesmente. O dinheiro é moeda de significação para o absurdo e o ingênuo que há na dramaturgia de Ágota. Duas ou três trapaças tolas e está armada a boa carpintaria de motivos. No chão em pó, a transparência em cacos do passado que se repete. O bar-cenário é de riqueza simplória: um balcão central com garafas; duas mesas; quatro cadeiras; alguns degraus; um pequeno quadro e uma vitrola (com jazz da melhor qualidade). À direita, um banheiro que agrega valor e movimento à ação. A iluminação é eficiente às elipses exigidas pela narrativa, que costuram sem a menor barriga o tempo infinito do absurdo.

O trio em cena não é menos valioso que o comando criador. Chico Aníbal, convidado do grupo, até começa a peça com pinta de quem não vai dar conta de fazer-se verdadeiro com a voz de sua composição. Traz registro de desenho animado perigoso, comum aos velhos no teatro para crianças. Por fim, experiente, dá conta de sustentar bem o simpático Joe. Epaminondas Reis, no papel de John, demonstra conhecimento clownesco irretocável. Tem nas mãos o timing de cada uma de suas ações. Não joga fora pausas e escapa ileso do bêbado caricato de representação comum. Carlos Henrique, inteiro em John & Joe, não diz palavra. Silencioso, soube bem construir o papel de contraponto. Chega a propor escada absolutamente crível atrás do balcão. Expressivo, dá desenho de consciência corporal marcante ao garçom.

John & Joe, assim como A mulher que ri (Barracão Cultural) e Elisabeth está atrasada (Companhia Primeira Campainha), é rica contribuição do Verão Arte Contemporânea deste ano à programação cultural de Belo Horizonte. A montagem fica em cartaz só até amanhã, no Espaço Trama – Teatro Garagem. Lugar alternativo no Bairro Floresta, que também funciona como bar para antes e depois das apresentações.

John & Joe
Espaço Trama, Teatro Garagem (Rua Salinas, 642, Floresta, (31) 2515-1580). Hoje e amanhã, às 20h. Ingressos: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia-entrada).

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