Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Fora do lugar-comum

Dá gosto ver novos movimentos da cena teatral no Brasil. Especialmente em Belo Horizonte, terra de vocação para o boteco e o entretenimento. Verdade. A cidade é dura com quem busca fazer diferente. Que o diga o Grupo Teatro Invertido, com seu galpão de cerca de 150 metros quadrados, e plateia minguada, numa esquina do Bairro Sagrada Família, na noite chuvosa de sábado. Atrair o público para fora do lugar-comum é osso. Proibido retornar, em cartaz pelo Verão Arte Contemporânea, é bom teatro de contramão. Não por acaso, o roteiro é contado de frente para trás.

Proposta compartilhada de arrebatamento sensorial, Proibido retornar se apropria de estrutura dramatúrgica não-linear para levar à cena trajetória infeliz de capiau do interior de Minas em busca de oportunidade na capital. Espetaculariza a desumanização do homem bom, acossado, perdido, longe de suas raízes. Quatro paredes levadas ao chão, o grupo faz uso de ocupação em forma de arena para contar sua história por todos os lados. O quarteto de fôlego se desdobra em uma dezena de personagens para fazer valer o recado de significado avesso, que provoca os cinco sentidos. No esforço para levantar algo autoral de substância, o grupo realizador comete mais acertos que erros.

Considerando que todos os atores, distanciados, participam do discurso direto, entende-se descartável, por exemplo, a existência de um narrador exclusivo, de microfone na mão, para ajudar a costurar a trama. Em Proibido retornar, a boa atriz Rita Maia sobra nessa função. Melhor tê-la chefe de obra ou prostituta-contratante, em jogo de palavras e intenções, do que como apresentadora de programa bizarro. Camilo Lélis faz de tudo para esconder o comediante agigantado que traz em si e até funciona como protagonista – embora tenha dificuldades para não exagerar nos olhos esbugalhados. Quando entende que, para a verdade, o menos pode ser mais, dá conta de manter o espectador na palma da mão.

Rogério Araújo não é artista de excessos. Cumpre com competência suas atribuições e engrandece o patrimônio intelectual de sua companhia. É Kelly Crifer a senhora da cena em Proibido retornar. A atriz demonstra saber bem a diferença entre gesto e ação física – como ensinou o polonês Jerzy Grotowski. Subjuga pausas, respirações e transita com peculiar lisura entre subtextos. Assim como Camilo Lélis no fim do espetáculo, Kelly protagoniza cena das mais belas e difíceis em abnegação. Ao lado de companheiros caros, concretiza teatro de sentido quase obrigatório, que merece respeito. A trilha sonora de Ricardo Garcia também vale registro.

Proibido retornar
Em cartaz na sede do Grupo Teatro Invertido, Rua Célia de Souza, 571, Bairro Sagrada Família. Sábados e domingos, às 20h. Até 7 de fevereiro. Ingressos: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia-entrada).

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 25/1/10

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