Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui. Em nós.

"Sabemos que mesmo essa mobilização que tem se levantado em todos os continentes não é suficiente para dar conta do caos social que assombra o povo haitiano."

São 380 mil órfãos – soube pelo noticiário. Milhares de mortos enterrados em valas comuns, recolhidos por tratores. Fome, miséria e destruição. Cenas de barbaridade se multiplicam na internet, nos jornais e nas tevês. Não há texto que eu, escritor amador, consiga juntar para exprimir parte ínfima do sofrimento dos que foram abatidos pelo violento terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti. Impossível ficar indiferente a mais essa tragédia que, ao menos temporariamente, desloca o olhar do mundo. Sabemos que mesmo essa mobilização que tem se levantado em todos os continentes não é suficiente para dar conta do caos social que assombra o povo haitiano.

Falamos aqui outro dia, por ocasião dos deslizamentos no Rio de Janeiro nas primeiras horas de 2010, em “desígnios de Deus”. Choveram e-mails. Alguns dizendo que é isso mesmo: o homem é por demais imperfeito e pecador e merece o peso das catástrofes. Outros, mais amenos, falaram em fatalidade apenas. Que, certamente, há algo do lado de lá bem maior do que o que conhecemos por estas bandas. Houve até quem dissesse em karma coletivo (algo a ver com causa e efeito): “pode ser o preço pago pelos nazistas ou por outros povos da pior espécie ao longo de toda a civilização”, enviou por e-mail o leitor do Vale do Aço. Quem vai saber? Qual é a religião que tem a resposta para as questões dessa natureza? Difícil saber. Além do mais, o Deus que há em nós está muito ocupado com outras questões, imagino.

O sol acaba de nascer. Daqui, de frente para o mar, o horizonte parece ainda mais infinito. São muitas as ideias a roubar-me os pensamentos. Cinquenta linhas para a coluna, reunidas em papel pautado. A caneta azul segue confusa na busca de síntese. É tanto que gostaria de escrever. Sinto-me embargado com essa história do ser humano que vive em condições inimagináveis. Capaz de matar por instinto de sobrevivência. Li coisas absurdas sobre a desordem. Ontem, depois que Violeta e os garotos foram dormir, passei horas pesquisando o assunto. Nos e-mails antigos, guardados por carinho, reencontrei o velho amigo sargento do exército brasileiro Rod Esteiger Silvestre. Em 2008, escreveu-me:

“Meu camarada Botelho.

Ao ler sua coluna esta semana (eu já a acompanho há bastante tempo, parabéns!), em que você fala da sua coluna nos EUA, me deu vontade de informar que aqui no Caribe ela também é lida. Sou sargento de artilharia do Exército, e estou servindo aqui no Haiti, no Batalhão Brasileiro da Força de Paz da ONU, em Porto Príncipe, a capital do país. No batalhão, de um total de 1.200 militares, calculo que tenha uns 80 mineiros, mais ou menos. Muita saudade da esposa, da família, de casa, dos amigos.
Saudade que é um pouco ludibriada ao ler diariamente o uai.com.br.
Especialmente as colunas do Aqui, na qual destaco a sua, amigão.

Forte abraço a você e a todos os familiares e amigos de Contagem e de Sete Lagoas.
Rod Steiger Silvestre - Haiti, setembro de 2008”

Procurei contato com o sargento para saber notícias. Ele está bem, em território brasileiro. Muito abalado com a morte dos companheiros soldados, escreveu:

“Imagino a angústia que os companheiros peacekeepers estão sentindo. Deve ser a mesma minha, já que passamos por lá e demos nossa contribuição. E pensar que poderia ter acontecido há um ano atrás, poderia ter sido um de nós (…) Rezemos todos pelos amigos que estão lá agora, pelos que se foram e pelas famílias”.

O Haiti é aqui, amigo leitor. Em mim, em você… em nós.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 20/1/10

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