Vincent - Um solo de amor

sábado, 16 de janeiro de 2010

Teatro de boteco

Realizar é correr riscos. Bem os conhecem todos os que buscam a diferença. Prato do dia, em cartaz pelo Verão Arte Contemporânea (Vac), é de uma infelicidade enorme, considerando tudo de melhor que o alimenta. A peça, montagem do 12º Oficinão Galpão Cine Horto, é a dura atestação de que, na arte, resultado pode não ter nada a ver com processo ou soma de recursos. Parece inacreditável que sete meses intensos de trabalho – documentados em caderno de luxo – resultem em roteiro tão ruim.

Não é necessário esquadrinhar o material entregue ao espectador ao fim da sessão para saber que Prato do dia se trata de projeto cuidadoso de pesquisa e levantamento; que todos – elenco e equipe técnica – têm muito a dizer; que é investigativo e visceral. No entanto, Lenine Martins (direção) e Letícia Andrade (dramaturgia) se exibem por demais desacertados no alinhamento das ideias. Contam mal dramas retalhados, superestimando o sentido e a construção do sentido.

Na noite de estreia da peça no VAC 2010, quinta-feira, pagantes e convidados até que compraram a ideia do teatro de boteco: beberam, comeram, fumaram e jogaram conversa fora. No salão do Galpão Cine Horto, transformado em bar-refeitório, parte do elenco se juntou à plateia, que, pouco a pouco, foi ficando bem à vontade para assistir ao desfile de pratos feitos (vivos) misturados a latinhas de refrigerantes, cervejas e garrafas de água mineral. No cardápio das relevâncias do dia, sexo, solidão, vaidade, pedofilia, religião e consumismo. Das mesas, o público pôde ver as boas atuações de Mariana Jacques, Juliana Capibaribe, Fabiana Martins, Patrícia Lanari e Renata Emrich. Cinco nomes de destaque entre os 14 fazedores-criadores agrupados. Mariana Jacques, inclusive, é responsável por ponto alto, de naturalidade vertiginosa, ao se desmascarar e deixar a cena em ato de revolta.

Não é difícil perceber a grandeza desfragmentada de Prato do dia: bom trabalho de máscaras; figurino e objetos de cena bem cuidados; luz que valoriza o desenho e a boa ocupação do espaço; atores que dominam voz, corpo e suas verdades construídas, notadamente entregues ao apuro e à aventura experimental compartilhada. Também o mote: “Fome de quê?”. Tema de pano para manga, dissolvido pela má edição das ideias trazidas à luz. Como tantos acertos podem se fazer tão desacertados em conjunto? Furor criativo. Prato do dia é boa lição aos puristas de plantão: excessos desastrosos não estão apenas nas comédias rasas, duramente criticadas. A distância entre o bom e o mau teatro pode ser bem menor do que se imagina.

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 16/1/10

Um comentário:

Margem disse...

Gostaria que fosse nos assistir:
Diario de um Louco
Palacio das Artes na Sala João Ceschiatti. Ainda apresentaremos na terça e quarta da semana que vem 20hs(ultimas apresentações na Campanha de Popularização)
Conto muito com sua presença, será importante para nós.
Forte Abraço!
Genilson Mendes