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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Hoje tem palhaçada

Distorcer-se em busca da boa graça não é fácil. No início era o princípio traz para a cena quatro bons clowns em espetáculo dos mais difíceis em cartaz na 36ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Minas Gerais. Não só pela força de transformação do elenco a empreitada merece créditos. Há bom contexto em roteiro de organização e crítica contundente no que poderia parecer apenas palhaçada. A origem do mundo é somente ponto de partida para a encenação das trapalhadas do homem desde sua criação. Da falta do que fazer, quando Adão vivia livre a se divertir com os animais, aos absurdos estarrecedores cometidos por pais que encarceram e abusam de seus filhos, entre tantas outras balbúrdias.

No início era o princípio é encontro de bons palhaços. O Deus composto por Silvana Stein prende e convence. A atriz, de expressiva presença, entende bem o excesso essencial à sua composição de poder. Bete Penido e Louisa Mari têm boa química. Complementam-se. Especialmente no jogo das galinhas, embora a cena se esgote pela extensão de algumas gags (breve efeito cômico). Bete tem um clown forte, do tipo dominador, que gosta de se dar bem. Seu discurso contra as coisas do Criador é ponto alto na montagem. Dá boa dose de humor à antipatia que constrói. Louisa, palhaça Taturana, é de ingenuidade cativante. Tem timing preciso e consciência corporal de bailarina. Seu clown é romântico e sedutor nas mais variadas situações da aventura.

Matheus Ramos vale um parágrafo. O palhaço Agrião, Adão em No início era o princípio, é hilariante. Não precisa dizer nada para ser o dono da cena. Aliás, de tão bom com o desdobramento físico das emoções, chega a perder a força quando diz alguma coisa. Como todo bom clown, Matheus sabe tirar proveito de suas características físicas e tem no olhar a sinceridade que arrebata o espectador. Não tem medo do ridículo e se apresenta inteiro nas situações mais frívolas propostas pela dramaturgia ou pelas companheiras de criação.

Os quatro bons intérpretes jogam bem sob o comando de Mariana Muniz. O senão grave da direção é o trato de palco italiano para o que é semi-arena. As plateias laterais da Sala Sesi Holcim ficam prejudicadas com a maior parte do desenho da cena voltado para a frente. Fora isso, No início era o princípio funciona muito bem em espaço fechado. Particularmente pelo prólogo na escuridão que antecede ao surgimento do mundo, quando planetas e estrelas coloridas são lançadas no universo. O efeito provocado pela cenografia enriquece a abertura.

Com figurino correto, apropriado ao argumento de Bete Penido, trilha sonora divertida com a reedição de hits dos anos 1980 – Eva, da Banda Rádio Táxi, por exemplo, é impagável na cena de Agrião –, No início era o princípio é trabalho diferenciado de quase tudo o que se vê em cartaz na cidade. Segunda montagem do grupo Hoje Tem Marmelada – o primeiro foi Tchupí-Tchupí, feito para as ruas –, a peça tem tudo para ter vida longa também em praças de outras paisagens.


NO INÍCIO ERA O PRINCÍPIO
Com o grupo Hoje Tem Marmelada. Direção de Mariana Muniz. No elenco: Bete Penido, Louisa Maria, Silvana Stein e Matheus Ramos. Teatro Sesi Holcim, Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7181. De quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h. Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 10 (Postos do Sinparc).

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 22/1/10

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