Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O destino de Valdomiro Blá


Valdomiro Carlos, também chamado Miro Blá, era a personificação da maldade mais magricela. Nascido em tempo de lua minguada, o sujeito mirrado de corpo e espírito, sem estudo ou valor moral, ganhou idade apenas secando a alegria dos outros. Nem pai nem mãe deram conta do indivíduo, que se enveredou cedo, garoto ainda, para as bandas da magia negra e para os terreiros da macumba má – do tipo capaz de secar pimenteira e fazer bodar os mais fracos, desgarrados de fé.

Vivendo do patrimônio dos pais mortos – de desgosto –, bastava Miro Blá querer para um bicho preto sucumbir. O cabeça de vento e inveja capava porcos, cabritos e veadinhos para alcançar vantagens. Longe das atitudes que fazem o homem valer a pena, Blá apodrecia por dentro na velocidade de todo o sangue que ele fazia talhar. Do pacto com a sombra, a vida medíocre de falsidades e amigos amedrontados.

Não havia quem ousasse se distanciar de Miro Blá. Perguntado pela avó por que estava sempre por perto daquele elemento peçonhento, Chico Piolho se abriu: “Ele tem vudu da gente, vó. Espeta e prejudica quem sai fora. Não soube do Barão? Morreu sequinho, engasgado com uma azeitona preta, lá em Escarpas”. Um dia pelo outro, deu que Miro Blá, se engraçou com um garotão vindo do Nordeste, baiano, batizado em terreiro forte.

No início, Erê, o moço de corpo fechado, até conseguiu ver alguma intenção de amizade em Blá. Não demorou para que, em festa de convite arranjado, o capoeira caísse nas malhas do Valdomiro. Blá fez poção com língua de taruíra e pó de granito de cemitério. Sapecou na bebida do garotão e caiu para cima na madrugada nublada. Erê amanheceu pelado, grudado em Blá, com sorrisinho cínico, figurado em arco.

Ainda sob o efeito da armação, o baiano catou as roupas e sumiu no mundo, enojado. Foi passar o fim de semana no terreiro da mãe no interior da Bahia. Lá, ouviu a receita contra o aproveitador: “O fi num pode deixa gente ruim prevalecê. Tome banho de canjica, dobre uma espada de São Jorge em cruz, olhe bem no zói do estrupício e diga baixinho pra ele: ‘sai zebedeu, que quem é de Jesus sou eu’...”

O capoeirista seguiu à risca a orientação da mãe e encarou Valdomiro Blá com o olho da alma. Foi durante encontro em boate da Região Centro-Sul, nova armação do magricela. O ponteiro não girou minuto e Blá, emudecido, deixou o estabelecimento já transformado. Capou o próprio sexo – peso morto desde a adolescência –, mudou de identidade e, hoje, como irmã Samanta Carla, é voluntário na África.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 9/7/12

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