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segunda-feira, 30 de julho de 2012

O bem pouco dos dias


O homem surrado pelas estações resolveu despachar a velha mulher em troca da empregada de vinte e poucos anos. Zé Donato pirou a cabeçorra vazia pelas carnes frescas e descobertas da sujeita desavergonhada. Dona Maribel, a esposa, dedicou mais de seis décadas ao casamento. Embalou filhos e netos. Viveu para a casa e para a família. Tratou das doenças do marido – até daquelas venéreas, que moravam entre as pernas das putas e que ele levava para casa. Difícil ter notícias de companheira como a boa dona de casa.

Menina do interior, aos 13 anos, Maribel foi apresentada ao futuro marido pelo pai, em Patos de Minas. Estava no lombo de uma mula, quando ‘seu’ Severo disse: “Essa é a minina que eu falei procê, Zé. Serve?” Serviu. Donato se casou com a moça e levou-a para morar e trabalhar em sua fazenda. Lá, em terras áridas, viveram por mais de 20 anos, até que Donato decidiu acompanhar os primos no rumo de Belo Horizonte. Passou no cobre as posses na roça, comprou lote e levantou casa no Bairro Carlos Prates, na Região Noroeste. Foi trabalhar com parente, num armarinho na Rua dos Caetés. Maribel esteve sempre presente, batalhando pela casa, pelos quatro filhos e pelos caprichos do companheiro.

A mulher fiel, chegada nas plantas do quintal, jamais conheceu outro homem. Já Donato nunca deu valor à família e vivia de enrabichar-se com as mais vagabundas e profissionais da cama. Com elas perdeu tempo, dinheiro e saúde. Maribel até fingia não saber, mas sentia na carne as sem-vergonhices do sujeito. O velho Donato se aposentou. Em casa, ocioso, além de mais estúpido, tornou-se ainda mais rabugento. Descobriu um tal comprimido azul e ficou impossível. Resolveu, agora, aplicar suas safadezas na mulher frágil e castigada pelo tempo. A velha Maribel viveu noites de terror ao lado do insaciável carcará.

A vida seguia até que uma nova empregada entrou para a família. Mulher carnuda e cheia de saúde, Elizete deu mole para o velho. Em menos de um mês na casa, a branquela assanhada já havia levantado a saia para o patrão uma dúzia de vezes. Donato perdeu o resto da lucidez no colo da empregada e passou a humilhar Maribel. Os filhos, ausentes, nada fizeram para ajudar a mãe, sempre muito silenciosa e reservada. O romance de interesses foi ganhando dimensões insustentáveis. Por fim, Donato deixou a casa de mãos dadas com Elizete. Foram morar juntos no Padre Eustáquio, bairro vizinho. Viajaram para a casa de praia, em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, e fizeram turismo no Nordeste do país – lua-de-mel.

Enquanto isso, dona Maribel, sozinha, dispensou a piedade dos filhos e continuou na casa que ajudou a construir. Sempre cuidadosa com as plantas, passou a dedicar-se exclusivamente às flores. Poucos meses depois da separação, o velho reapareceu doente e abandonado pela empregada. Donato tem câncer nos ossos. Hoje, é a velha Maribel quem cuida de suas necessidades e o leva à sessões de quimioterapia. Resta-lhe pouco. Bem pouco da vida.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 30/7/12

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