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quarta-feira, 25 de julho de 2012

As arapucas da vida


Na semana passada, sob o título "Cenas da prisão", escrevi sobre conversa séria, de homem para homem, que o velho Botelho, meu pai, teve comigo quando eu, ainda garoto, não tinha mais que metro e meio. Toquei em assunto delicado, de família: a prisão de parente muito querido, preso e condenado como traficante. Jovem, desmiolado, caiu em tentação com a ideia de dinheiro fácil e não deu outra: foi em cana e, mais tarde – mesmo depois de ter cumprido pena e nunca mais ter se envolvido com maconha –, morreu sozinho, doente, de desgosto.

Atendendo a pedidos, volto ao assunto. Luciana, leitora muito querida, moradora de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, escreveu-me querendo saber mais sobre “as armadilhas do mundo”, ditas pelo velho Botelho e relembradas na edição passada de Bandeira dois. “Josiel, você falou em ‘armadilhas do mundo’... queria saber mais de você sobre isso, porque você sempre fala no seu pai com tanto respeito, que as lições dele devem ter sido muito boas mesmo para a sua vida. Não tenho pai. Nunca tive. Mas minha mãe também fala muito em armadilhas. Seriam as mesmas?” Certamente que sim, querida leitora.

Bem, Luciana... até hoje, budista, o velho Botelho fala em armadilhas. Obediente, discípulo, faço minhas as palavras dele também na educação dos meus filhos. Se entendi bem a lição sobre as arapucas da vida, posso afirmar que não há causa sem efeito. Causa boa, efeito bom. Não adianta querer colher morango, plantando limão capeta. O que vai, volta. Pense coisas boas, pratique o bem sempre, que, certamente, você vai estar protegido por um campo de força pura, limpa, benéfica. As armadilhas são armadas o tempo todo ao nosso redor pelos sujeitos fracos, sujos de alma e espírito. São muitos e nos rodeiam aos montes.

As más companhias são grandes responsáveis por boa parte das arapucas que encontramos pelo caminho. Não é fácil ter forças para evitar as tentações e os falsos amigos. É assim com quase todos os nossos vícios. O cigarro, a bebida, os mais tolos deles, começam assim, para fazer bonito em grupo. Bobagem. Não temos que fazer bonito para ninguém. Temos que ficar bem, em paz, conosco. O resto é conversa ruim da gente besta. Conheço muita gente sem valor. Aproveitadores das circunstâncias, vítimas da vaidade cega que aniquila. Pobres de espírito, corroídos por facilidades baratas. Estes, coitados, estão afundados na própria lama, armadilha de si mesmo. Identificá-los e mantê-los distantes é necessário pela boa saúde moral. Alguns, vampiros de energia, se distanciam naturalmente. Outros, insistem em nos rodear.

“Somos postos à prova o tempo todo”, disse-me certa vez o pai. De fato, vejo-me o tempo todo diante de exames aplicados pelo bem e pelo mal. Duas forças implacáveis, antagônicas, que se atracam sem cessar. É assim no trabalho, em família e na fé. Desde a fase adulta, venho praticando o patrulhamento diário de “viver para não se arrepender”. Falho muito, é verdade. Mas apenas naquilo que desconheço. Esforço-me para não repetir os mesmos erros. Na medida do possível, procuro viver em paz com a minha consciência, na incapacidade de fazer mal ao outro e aos meus eus. Acho que é isso, Luciana, um pouquinho do que aprendo todos os dias sobre as arapucas da vida. Meu carinho.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 25/7/12

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