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sábado, 14 de julho de 2012

Cenas de "Um Inimigo do povo"

Logo mais, às 20h30, no Teatro Marília (Av. Alfredo Balena, 586 - Santa Efigênia), voltamos à cena com "Um inimigo do povo", de Henrik Ibsen, sob a direção de Walmir José, com produção de Rômulo Duque e Marisia do Prado. Amanhã, domingo, a apresentação é mais cedo: às 19h.

No palco, Jefferson da Fonseca Coutinho, Geraldo Peninha, Marcelo do Vale, Beto Plascides, Ana Amélia Cabral, Bianca Tocafundo, J. Bueno, Luiz Hermidas e Márcio Miranda. Abaixo, o olhar de Alessandro Tocafundo em noite para não esquecer no Grande Teatro do Palácio das Artes. Evoé!

















Com orgulho, compartilhamos a crítica de João Paulo, publicada no Estado de Minas, em 25 de novembro. Quem acompanha a imprensa nacional sabe que o editor de Cultura do EM é hoje um dos jornalistas mais respeitados do Brasil.

Um contra todos

Por João Paulo

Ibsen (1828-1906) fez teatro para pensar a partir da mobilização intensa do sentimento. Sua arte está na encruzilhada de elementos românticos, realistas e simbólicos, com temas que vão da revolta contra as convenções machistas à recusa metafísica da transformação do homem em coisa. Dentro de casa e na balbúrdia das ruas, foi o autor dos mais profundos diagnósticos da corrupção moral do capitalismo do seu tempo. Ao mesmo tempo, pulverizou a indignação muito além da dimensão política para atingir a condição humana no sentido filosófico. Um inimigo do povo, de 1882, se situa no cerne desse projeto. É peça que permite leituras psicológica, social e política. E que mantém atual.

A montagem dirigida por Walmir José, que já havia levado o texto ao palco anteriormente, estabelece um relacionamento com dilemas contemporâneos no campo do pensamento e da ação política. Depois de montar o texto nos anos 1970, em plena ditadura militar (quando a própria palavra “inimigo” não permitia metáforas), o diretor opta por problematizar a questão ideológica atual, a partir de referências mais universais, embora fortemente marcadas pela conjuntura. Nunca a política esteve tão em desprestígio como hoje, o que explica, ao mesmo tempo, a força dissolvente das ideias convencionais (não parece haver mais oposição no reino do pensamento único) e a leniência das formas de revolta, substituídas por um hedonismo desmobilizador e individualista.

É nesse sentido que a montagem oferece sua contribuição. Em primeiro lugar, pela crença na força da palavra. A adaptação, que atualiza a trama original incorporando a dimensão ecológica, vai ao texto de Ibsen para resgatar nele sua mais determinada intenção. Há, a seu modo, a afirmação de uma tragédia liberal (que vai além do modelo da tragédia burguesa), que lança mão de um novo tipo moral. O dr. Stockmann de Ibsen equilibra várias fontes de revolta para afirmar o modelo de homem político, capaz de ir contra a maioria para preservar sua humanidade. A mentira, mais que um mal a ser afastado, é resultado de um sofisticado arranjo social que ganha guarida na alma de pessoas fracas e cediças.

Há, na peça, o risco real de submeter as ideias do autor a um jogo de certo e errado, verdadeiro e falso, ético e imoral. Nada mais distante do espírito de Um inimigo do povo. A tradução desse equívoco poderia ganhar a forma de um simples duelo de posições maniqueístas, da qual os irmãos Stockmann, o cientista e o prefeito, incorporariam os limites, numa falsa disputa entre razões da ciência e interesses da política. Ibsen foi além ao incorporar certa dimensão farsesca, de humor destrutivo, que mancha a atuação dos dois lados. Há a hipocrisia do poder, mas também o empenho salvacionista e desequilibrado da razão embriagada de certeza. Sem falar na fatuidade burguesa, na ambição do homem de negócios e na ética de circunstância da imprensa.


Anarquismo

No palco, a escolha do diretor sublinha os elementos anarquistas do protagonista, que luta contra todos e sobrevive a seu modo. É astuta a criação de um clima de comício, mimetizando o cenário em que a política dá as mãos ao marketing para se submeter a meias verdades funcionais.

No elenco, destaque para a atuação de Jefferson da Fonseca (Tomás Stockmann, um Quixote contagiante, enlouquecido com sua verdade) e Geraldo Peninha (Pedro Stockmann, numa composição que equilibra postura emproada e a dissimulação). A atualização da trama, no entanto, não fica bem caracterizada no cenário e figurino. Se o texto é tão preponderante e bem articulado pela adaptação, nada mais justo que dar ao espectador elementos teatrais igualmente fortes e significativos.

Ibsen não queria ser identificado com seu personagem, ainda que carregasse em parte as mesmas ideias. Um dramaturgo não se coloca no palco. Quem deve se reconhecer nos personagens é o espectador. Neste sentido, Um inimigo do povo segue atual, ainda que em outro contexto. E o espetáculo de Walmir José tem o mérito de jogar a luz para a plateia.

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