Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Jesus, de José e Maria

De lado as leis dos homens, dos templos e seus chefões, amar com a natureza da alma não pode ser de todo mal. Não ali, naquele encontro, entre José e Maria. Em 2009, de carona na boleia do caminhão com placa de Pernambuco, os dois, lado a lado, em silêncio, repassaram a história deixada pelo caminho para o futuro em lugar qualquer no fim da viagem. Na cabeça da ex-irmã, o esculacho da madre severa, superiora: “Vergonha! Vergonha!”. Já no professor, ex-seminarista, retumba a bronca do reitor parente: “Moleque! Você é moleque! Vou queimar seu nome onde houver uma universidade decente! Moleque!”.

Lembranças duras, de pouca importância. De valor, o momento: ela com a cabeça no ombro dele. Num só suspiro, os dois. No rádio, bolero antigo, adocicado. Ao volante, Baiano, carreteiro vivido, cinquentão, experiente na agruras do amor. “Vocês formam um casal muito bonito! Tem filhos?”, quis saber, rompendo o vazio. Talvez pelo esculacho da madre, talvez pelo cansaço da última semana, Maria não quis conversar. Apenas meneou a cabeça indicando o não. José quis retribuir a generosidade de Baiano, que acolheu o casal sem rumo, à noite, em posto de beira de estrada: “Pretendemos ter muitos filhos... ‘seu’ Baiano”.

O carreteiro sorriu e emendou: “Filho é muito bom. Tenho sete. Quis o Homem lá em cima fosse com duas mães. Mas tenho sete filhos. Estou no meu segundo casamento. A primeira mulher me deixou. Lucimara. Com ela, tive dois: Josiel e Ribamar. Cantam que é uma beleza. Já tão fazendo muito show no Ceará. A mãe deles não aguentou a minha vida na estrada... aí, arranjou outro. Sofri muito... mas dei a volta por cima... porque quem tem Deus no coração não fica desamparado. Conheci Bernadete, minha companheira. Ela me deu cinco: Pedro, Lucas, Tiago, Karina e João”.

José e Maria, ainda que tocados pela alegria de Baiano, não conseguiam deixar de pensar na luta dos últimos dias de 2009 para estarem ali, juntos, no rumo de vida nova. Conheceram-se em 2007, durante encontro católico. Foi amor à primeira vista, desses sem explicação. Ele, noivo, de casamento marcado. Ela, de votos com os céus. “Para a eternidade”, pensava. José chutou o pau da barraca e desfez noivado naquele ano. Maria trancafiou o sentimento em segredo. Amor impossível, em dois anos, professor e freira trocaram meia dúzia de e-mails e quatro telefonemas. Sempre por razões profissionais: projetos da universidade e da congregação.

Por fim, no último encontro religioso em 2009, o professor e a freira não deram conta e se entregaram. Abriram-se apaixonados, em silêncio. Um longo e demorado beijo se encarregou de dizer o que não podia ser dito. Olhares trocados, ouviram o coração. Ela quis se despedir da madre superiora. Para ela, uma mãe. Ele foi honesto com o reitor, seu pai. O reitor e a madre espinafraram. Reduziram-nos ao pior de todos os pecados. Daí, tristeza e decepção. Carro velho, estragado na estrada, a salvação foi a carona do Baiano. Tempos passados. Hoje, dia de agosto de 2012, em cidade praiana no Nordeste, José e Maria comandam projeto social que atende a cerca de 3 mil crianças carentes. Felizes, estão para ter o primeiro filho em dezembro: Jesus.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/8/12

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