Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Mulher objeto, homem idiota


Na segunda-feira, com passageiro psicanalista, amigo dos mais inteligentes, tive conversa que me tirou o sono. Ainda mais depois que soube do jovem motorista, de 18 anos, que atropelou e matou intencionalmente no Vale do Sereno, em Nova Lima, na saída de boate. No Brasil, perturba-me por demais a facilidade com as bebidas. Para o Cássio, meu amigo psicanalista, as bebidas são até piores do que o crack. Isso, porque são legalizadas e estão ao alcance de qualquer um. Estão entre amigos, entre familiares. Para gente aos borbotões, é chique “chapar o melão”, “virar o copo”, “tomar todas”, “meter o pé na jaca”... uma lástima.

Não caberia nesta edição os nomes dos meus amigos e parentes beberrões. Também não caberia no jornal um retrospecto dos mortos em acidentes provocados pelo álcool. Tem pai e mãe que acham lindo ver o filhinho tomar o primeiro porre, viver na rua bebendo com os amigos. “Meu filho é homem, Josiel. Já tem 18 anos, tá certo sair para beber com os amigos, uai!”, ouvi outro dia de colega de praça. Semana passada, o garoto chegou de madrugada, vomitou na casa inteira e foi parar na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro. Mas o Aldeir continua achando certíssimo o garoto gostar de “chapar o melão”.

Difícil lidar com isso. E as propagandas? Alguém em sã consciência poderia me explicar porque as propagandas de bebida ainda não foram proibidas? Não vale dizer que é porque rendem muito dinheiro – bilhões e bilhões. Gostaria de obter resposta responsável, condizente com o bem geral dos cidadãos. Alguém? Chega a ser ridículo a publicidade das cervejas fazendo a mulher de objeto e o homem de idiota. Faz-me lembrar os comerciais de cigarro em tempos de lucro e ignorância. Exibiam homens saudáveis, elegantes, aventureiros. Depois, teve até garoto propaganda de marca famosa, com câncer, definhando, processando a indústria do tabaco. Hoje, o fumante, viciado pelo sistema, é tratado quase como criminoso.

Já fui fumante e já bebi além da conta. Hoje, aos 41, tenho comigo, entre familiares e amigos, meus momentos de lazer. Mas, em casa, há um patrulhamento responsável, diário, contra tudo que pode nos fazer perder a razão. A maturidade ensina: aprende quem tem força de vontade. Pode até ser motivo de riso para alguns colegas. Volta e meia ouço piadinhas do tipo: “Trouxe o todinho de casa, Josiel”; “Para o meu amigo... leite”; “Chegou o vigário”. Podem falar. Falem à vontade. Não me importo. Vi parentes alcoólatras, aos montes, perderem o juízo... e com o juízo se foram o respeito, a saúde, o trabalho, a família e a dignidade.

É uma regra, infelizmente, muito particular: não faço uso de nada que pode afetar a minha consciência. Procuro dar exemplo aos meus filhos. Sei bem de vidas inteiras destruídas pelo fácil acesso às bebidas. E ainda tem gente que fala na liberação da maconha. No Brasil, amigo leitor, o maior desafio ainda é a educação.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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