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quinta-feira, 8 de março de 2012

Refém da solidão

A notícia, ruim, correu rápido a cidade em fim de manhã. A morte do gorila Idi Amin aos 39 anos, tendo na alcova duas companheiras mais jovens, virou piada pronta para engraçadinhos e embargou a garganta dos mais sérios. Ouvia-se em muitas esquinas que Idi “não tinha dado conta das companheiras” ou que “havia tomado estimulante sexual falsificado”. Graça rasa no lixo, em outros cantos, o assunto era de apertar o coração de muitas gerações.

O sujeito de nascimento sem documentação, supostamente em 1973, em meio à floresta tropical africana e levado para o zoológico francês Saint-Jean-Cap-Ferrat, chegou a Belo Horizonte ainda garoto, com 2 anos e não demorou para conquistar o coração da cidade. Não veio só. Teve ao lado a fêmea Dada, de idade aproximada. Em 1978, a jovem companhia de Idi não resistiu a uma infecção generalizada e morreu, dando início à longa história de solidão do único representante da espécie em cativeiro na América do Sul.

Reservado, discreto e robusto, o gorila ensimesmado, cada vez mais querido por todos na Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte (FZB-BH), passou a vida fazendo a alegria e despertando a curiosidade de crianças e adultos, visitantes de seu recanto próximo à Lagoa da Pampulha. Em 1984, o encontro anunciado com Cleópatra, fêmea vinda do zoológico de São Paulo. Desidratada e com diarreia, a gorila teve quadro clínico agravado e, assim como Dada, não resistiu.

Foram duas semanas apenas, antes do mais longo período de vazio e falta de graça na vida do solitário Idi. Para dar conta dos dias, além da paisagem e dos cuidados de seus tratadores, um velho pneu companheiro. Não foram raras as aparições de Idi Amin sob o céu, trazendo consigo a borracha fria amiga, surrada e carinhada. Do que mais chamava a atenção em Idi, o olhar profundo do moço, capaz de marcar para sempre.

Marca já bem conhecida pelas duas fêmeas Imbi e Kifta, de 11 anos, vindas da Fundação Aspinall, da Inglaterra, em agosto de 2011 para, finalmente, por fim à solidão de Idi. “O amor está no ar”, estampavam as faixas de boas-vindas às duas moçoilas nas ruas do zoológico. A cidade fez festa e sonhou filhotes. Conforme nota da administração, “a adaptação entre o gorila Idi e as fêmeas foi perfeita desde o primeiro momento.

Agora, com a morte de Idi Amin, não se sabe qual será o destino das fêmeas. A FZB vai tentar conseguir um macho e trazê-lo para BH, mas não descarta a possibilidade de as duas serem devolvidas à Fundação Aspinall, pois Imbi e Kifta vieram para a capital mineira como parte de um projeto de reprodução e preservação da espécie.

Estado de Minas - Jefferson da Fonsecas Coutinho

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