Van Gogh - Temporada 2017

Van Gogh - Temporada 2017
Estreia dia 17, no Teatro Marília

quinta-feira, 15 de março de 2012

Amanhã tem "Os sem vergonhas"


O sucesso está de volta. De amanhã (sexta-feira) a domingo, tem Os sem vergonhas, com direção de Guilherme Leme, no Teatro Alterosa. No elenco, J. Bueno, Maurício Canguçu, Jefferson da Fonseca Coutinho, Leri Faria, Ilvio Amaral e André Prata. Em 22 de setembro de 2005 – ano de estreia da peça –, no caderno de Cultura do Estado de Minas, Marcello Castilho Avellar escreveu:


O forte é o enredo

O que a comédia Sem vergonhas tem a ver com alguns grandes textos clássicos, como Romeu e Julieta? O fato de ter o enredo como elemento principal de conquista do público, numa arte em que, freqüentemente, reinam a dramaturgia, a encenação ou a interpretação. Romeu e Julieta ganhou sua forma mais célebre na tragédia de William Shakespeare, mas sobrevive com vigor em versões como West side story. Sem vergonhasé versão do filme britânico Ou tudo ou nada, que tratava de um grupo de desempregados que, para sobreviver, decidia fazer um show de nudez.

Romeu e Julieta alcançou o status de obra-prima pela qualidade da escrita de Shakespeare. Esse fato não impede que alguém se emocione intensamente com West side story mesmo sem conhecer a tragédia em que se inspirou. A situação básica da peça –um casal de amantes que integram grupos inimigos – é anterior a Shakespeare, e funciona em outros lugares, com outras personagens. Ou tudo é nadamostrava nossos heróis no Reino Unido e dava a cada um deles um drama pessoal; Sem vergonhas vem para o Brasil, e cria novas personagens, com novos dramas. Alguém poderia fazer uma adaptação na Argentina, outra pessoa nos Estados Unidos – desde que dramaturgo, encenador e intérpretes não atrapalhassem, o resultado seria, no mínimo, engraçado.

A situação é tão eficiente para produzir, ao mesmo tempo, identificação do público e humor, que fica difícil separar os méritos desta materialização específica do enredo e os méritos do próprio enredo. A adaptação de Liane Lazovsky e Guilherme Leme (que também assina a direção) é esquemática, no sentido de evidenciar uma trajetória comum para cada uma das personagens, que em algum ponto deverão revelar algo completamente pessoal, e superar um obstáculo em seus percursos individuais; em compensação, dá vida a cada uma delas dentro destas trajetórias, pega o público de surpresa, conquista-o produzindo alguma impressão de verdade em cada uma delas. O texto é capaz, ainda, de construir um humor brasileiro, não apenas no sentido de lidar com linguagens brasileiras, mas de permitir ao espectador perceber a cena como parte – ou como o outro lado – de seu cotidiano.

Na ânsia de permitir a cada um dos atores apresentar sua própria forma de fazer humor, Leme suja um pouco a cena. Por um lado, acaba construindo, com isso, uma metáfora do próprio recorte de Brasil que apresenta: um espetáculo “sujo” para uma pobreza “suja”, o que dá vigor à sutil mensagem social de Sem vergonhas, e caminha para o gostoso sentimento de redenção no finaldo espetáculo. Por outro, acaba apresentando um elenco que nem sempre funciona como orquestra, cada um brilhando mais quando tem o drama pessoal de sua personagem a mostrar, e menos quando a lógica da cena é a do conjunto. O processo, ao mesmo tempo em que estimula saudavelmente os intérpretes a desenvolverem estilos próprios, acaba submetendo o timing de Sem vergonhas ao ritmo de cada um. Se não é o suficiente para interromper a sucessão de gargalhadas, faz com que as cenas que se apóiam em comediantes mais experientes, como Ílvio Amaral e Maurício Canguçu, acabem funcionando melhor.


Estado de Minas - Marcello Castilho Avellar - 22/9/05

Nenhum comentário: