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segunda-feira, 5 de março de 2012

O segredo do juiz careca

Bom sujeito o setentão, magistrado da pinta no tronco. Tão bom que dedicou meio século de vida para agradar os outros. Primeiro, pais e avós – gente tradicional do interior de Minas. Depois, a mulher e os três filhos varões. Anos adentro, Jota guardou segredo, vontade mais íntima, sob a mancha de nascença no lado esquerdo do peito. A nem todo amor secreto é possível dar sono a eternidade.

Uma vez por ano, na primeira segunda-feira de março, o juiz pausa a linha da vida para rever a farsa. Em casa, para a mulher companheira, diz participar de encontro fechado com os colegas de direito da universidade. Meia verdade. O encontro existe. Todos os anos, na cobertura de prédio luxuoso na Região Centro-Sul, cerca de 40 formandos muito bem sucedidos celebram os idos de 1960. O fato é que o juiz nem sempre comparece.

Jota, quando presente, não passa mais de meia hora na festa. Reservado, distribui apertos de mão, ois e olás e desaparece. Tem outro endereço: um apartamento de frente, na altura da cobertura, comprado sem a família saber, especialmente para observar o evento. É lá que ele, com a gravata frouxa e binóculo nas mãos, desperta seu sonho mais antigo. Contenta-se à distância e soma os dias em silêncio pelo instante.

Antes, Jota esteve na comemoração. Não mentiu alegria para a maioria e teve nos braços o corpo amado que lhe pesou prazer em tempos às escondidas. Cinco meses, logo que veio do Vale do Rio Doce para fazer direito. Aí, com a gravidez da noiva, prima, filha de coronel casca grossa do interior, Jota fez sombra o querer. O mundo naquele abraço de minuto e meio. Não trocaram palavra. Os olhares profundos, vazio de toda vez, apenas.

Ele nem titubeou para deixar a cena, tomar elevador e atravessar a rua. Tudo sem olhar para trás, como de costume. No imóvel, sem armários, com vista para a festa, uma única cadeira. Nela, de ferro, o homem a ver tão perto o objeto proibido. Ainda que envelhecido, a mesma delicadeza. Os cabelos ralos, embranquecidos, fazem lembrar os fios suados nas noites indecentes de outrora. Da pessoa, não menos reservada, nunca soube muito. “Não se casou. Teve um filho. Há tempos. Médico”, disseram perto do juiz num encontro passado.

Jota, orgulho da ordem, 72 anos, libertou sopro vindo das entranhas: “Chega”. Virou o resto da garrafa de vinho trazido de casa e voltou à rua para subir cobertura. Lá, diante de todos, para a surpresa dos colegas advogados, delegados, procuradores e juízes aposentados, puxou segredo pelo braço e lascou-lhe beijo de novela. Até o quarteto de cordas emudeceu Bach. No salão de luxo, todos os olhares para Jota, que tomou Eme pelas mãos para todo o sempre.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 5/3/12

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