Vincent - Um solo de amor

sábado, 31 de outubro de 2009

Os dragões não conhecem o paraíso

"O que a jabiraca melhor fazia era mimar as sucuris e infernizar a vida do companheiro, que, homem de regras, fiel aos compromissos, jamais pensou tirar do dedo a aliança"





Finou-se o Alcebíades. Por escrito, o último desejo: “A quem por mim tem respeito, um pedido: quero ser cremado. Minhas cinzas joguem no mar de Rio das Ostras, bem em frente às amendoeiras. Ponto final e um abraço”. Verdade seja dita, foi lá, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, que o velho mineiro nascido na Zona da Mata viveu tempos felizes. Funcionário público aposentado, passou maus bocados por mais de 30 anos em repartição abarrotada de burocratas e traíras na prefeitura de Belo Horizonte.

Contudo, o trabalho, nem de longe, foi sua pior sorte. Azar mesmo foi a dona gorda e destemperada que arranjou para mulher. Uma tal Dasdor, que conheceu numa excursão para Brejo Grande. Um colosso descomunal. Mais feia do que filho bater na mãe no aniversário de Jesus. Nem boa parideira a fulana era. Abortou só de sacanagem, com um cabide, o filho homem que o Alcebíades tanto queria. Um baque e tanto para o sujeito. De resto, com a dona, no balaio das infelicidades, vieram duas assombrações de saias: Fiorella e Fiorentina. “Filhas do capeta, isso sim!”, era o que a vizinhança dizia.

As duas gurias, quase gêmeas, com oito meses de diferença apenas, fizeram o diabo com o pobre do Alcebíades. Manhas, birras, pirraças, o escambau. A mãe, do tipo que só sabia comer, dormir e reclamar doença, deixava tudo por conta do marido. O que a jabiraca melhor fazia era mimar as sucuris e infernizar a vida do companheiro, que, homem de regras, fiel aos compromissos, jamais pensou tirar do dedo a aliança. A vida sofrida, de pouca ou nenhuma alegria, ganhou graça foi mesmo com a compra da casinha na praia. Principalmente, porque os dragões não gostaram do lugar. As três disseram em coro, na varandinha que dava para o mar: “Melhor a morte!”.

Aquilo deixou o Alcebíades chateado para burro. Nem quando teve o crânio afundado pelo peso da panela de pressão, agredido pela Dasdor e pelas filhas, ficou tão sentido. Mas, pela primeira vez, sustentou a própria vontade, manteve a compra do imóvel e passou a viajar sozinho uma vez por ano, em feriado qualquer, quando a patroa deixava: “Vai, desgraça!”. A verdade é que, lá, em paz, passou dias de glória. Durou pouco. Cinco anos apenas. Até que teve piripaque, passando os vestidões GGs da família. Fulminante. Morreu com o ferro quente na mão. Dasdor viu a queda e ainda berrou: “Levanta, imprestável!”.

O bilhete de vontade póstuma, grampeado na capa de pasta de documentos, Dasdor rasgou com a conivência das infelizes. O corpo do Alcebíades acabou num caixão barato, enterrado em cemitério popular da cidade. Ainda assim, certamente, alcançou o paraíso.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 31 de outubro de 2009

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