Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Os perigos no escurinho

O estupro e assassinato da estudante Josielle Alves Salustiano, de 19 anos, em Pernambuco, na noite do último domingo, rendeu-me a caderneta cheia de anotações. Não apenas porque ela foi morta no banco de trás de um táxi, mas, especialmente, pelo contexto do crime. O caso ainda não foi esclarecido. O que sei, pelo que pude acompanhar até o fechamento desta edição, é que ela e José Edson Lima Júnior, de 24, que conduzia o veículo ganha-pão do pai, foram dar uns amassos em lugar ermo, no Alto do Cruzeiro, no Bairro do Jordão, no Recife. Lá, pela versão do namorado, o casal foi surpreendido por bandido armado. Daí, o estupro e a morte de Josielle, com dois tiros na cabeça. História lamentável. Tragédia de entristecer qualquer cidadão de bem.

Essa história de pegação dentro de carro é assunto regular em nossas rodas da praça. É bastante comum para quem roda à noite flagrar casais na intimidade sobre quatro rodas em tudo que é quebrada noite adentro em Belo Horizonte e região metropolitana. Foi-se o tempo em que era até charmoso namorar dentro dos Fusquinhas, Chevetes, Mavericks e Opalões. As cidades não eram tão violentas. Hoje, infelizmente, é dar mole para o azar. Entendo perfeitamente os pais que não dormem enquanto os filhos não chegam. E isso nem tem a ver com a idade dos rebentos. O Onofre, meu passageiro de tempos, morador do Bairro Santo Antônio, não prega o olho enquanto os dois filhos solteiros não estão seguros em casa. E olha que um tem 23 e o outro 25.

Pela segurança dos filhos, já tem muito pai moderno, de cabeça aberta, oferecendo a casa para os namorados da família. O que até bem pouco tempo atrás poderia parecer um absurdo já é realidade em pelo menos meia dúzia de lares que conheço. No apartamento da Juçara, velha conhecida, casada com o dr. Eustáquio, o namorado da filha tem até guarda-roupa. E o namoro vai bem e longe: já são mais de dois anos de confiança. Há pouco mais de mês, numa corrida longa, ouvi do próprio dr. Eustáquio: “Prefiro dar liberdade para a minha filha em casa do que não saber o que ela está fazendo na rua”. Lembro-me de ter anotado a frase, de tão bacana que achei.

E isso não é só na casa de gente estudada, de recursos, não. O “seu” Nico, melhor pedreiro que conheci na vida, fez até suíte para a filha ter mais espaço e liberdade. A relação dos dois é de fazer inveja a muita gente. A filha, Tereza, funcionária de um sacolão, tem 21, e há quase um ano leva o namorado para dormir em casa. O “seu” Nico gosta tanto do genro, trabalhador, operador de telemarketing, que já até cedeu o fundo do lote para a construção do barracão dos dois. O resultado de tamanha amizade é que a Tereza, segundo o pai, não esconde nada da família. Uma coisa posso testemunhar: é de dar gosto ver o brilho nos olhos dela quando o assunto é o pai.

A conversa rendeu, amigo leitor. No entanto, o que eu queria com nossa Bandeira Dois de hoje, de coração, é chamar a atenção para os perigos no escurinho e pedir que Deus conforte a família da pernambucana Josielle.


Bandeira Dois - Josiel Botelho - 7 de outubro de 2009

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