Vincent - Um solo de amor

sábado, 3 de outubro de 2009

Bola 7

"Foi num motel barato, no Centro da cidade, que a Eulália encomendou o serviço. Marcou horinha de amor barato com mau elemento e, depois de suar bicas debaixo do malandro, mandou a ideia..."




Ao cair a casa para o Maurinho, filho do taxista Adelson, meia dúzia de traficantes graúdos foram obrigados a tomar providências. Não demorou para que a coisa se resolvesse. A morte do garoto, espancado na prisão, trouxe alívio ao morro e ao asfalto. Do flagrante à condenação foram tempos de dor de cabeça para o Danilo. Dono da autoescola de faixada, foi ele quem deu ao Chico o comando que abrigava o Maurinho. Logo que o garoto foi preso, o próprio Danilo, pressionado por gente de cima, embarcou o afilhado para o interior da Bahia. Abaixo dele, ficou apenas a dona Eulália, muambeira da Floresta. Assim que os dois souberam da condenação do Maurinho, juntos, resolveram a parada. A conversa foi à luz do dia, durante café na Praça Sete. O Danilo puxou o assunto:

– O doutor não deu conta.
– Quanto tempo?
– Nove anos. A gente vai ter que cuidar do assunto.
– Ele é muito garoto.
– O Cabeça quer tudo resolvido.
– Não tem outro jeito?
– Ou ele ou você.

Não precisou render a conversa. A Eulália entendeu o recado. No dia seguinte, às pressas, a madame deu jeito de conseguir visita no presídio. Passou-se por advogada enviada pelo comando. O Maurinho já estava de cabeça raspada e exibia marcas de violência.

– Dona, diz pra todo mundo que eu já fiquei calado tempo demais.
– A gente sabe da sua situação, meu filho. Por isso que o outro advogado saiu do caso.
– Então avisa que, se eu não sair daqui rápido, vô entregá todo mundo.

Foi num motel chinfrim, no Centro da cidade, que a Eulália encomendou o serviço. Marcou horinha de amor barato com mau elemento e, depois de suar bicas debaixo do malandro, com o cigarrinho no canto da boca, pegando pacote de dinheiro na bolsa, mandou a ideia: “Tem que ser igual ao caso do Curió. Não pode ter erro. Tá aqui a metade. O resto eu dou pra você com o caso encerrado”, disse, maliciosa.

O Danilo jogava sinuca com os amigos quando soube da missão cumprida. Desligou o celular, passou giz na ponta do taco e cantou feliz: “Bola 7”. Matou a crioula.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 3 de outubro de 2009

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