Vincent - Um solo de amor

sábado, 17 de outubro de 2009

Há sempre alguém esperando por você

Bastou que a mulher abandonasse a casa para que o Leônidas desse o troco. Ele até que tentou salvar o casamento, mas foi despachado na rua, no portão da casa da sogra, sem dó ou piedade, diante dos olhos tristes da filha Gabriela. “Não sou mais sua mulher”, mandou na lata a esposa. Arrasado, tomou lotação circular amarela e deu duas voltas na Avenida do Contorno. Desceu em ponto deserto e seguiu a pé, com a cabeça a mil, até o apartamento recém-alugado para aumentar a família. Ficou só na vontade, já que a companheira se apaixonou pelo instrutor da autoescola do bairro. Subiu pelo elevador decidido a não amargar solidão nem ficar mal na fita.

Ainda olhou desolado para o quarto de casal sem vida, antes de passar a mão no celular e fazer ligação. Do outro lado da linha, doce e disponível, Clara, colega de repartição na empresa de engenharia.

– Alô!
– Preciso ver você.
– Agora?
– Humhum.
– Onde?
– Anota o endereço.

E esperou pela secretária do quadril largo e da pele aveludada. Tomou banho para mandar pelo ralo o cheiro da ex-mulher. Guardou os brinquedos da filha espalhados pela casa e desfez porta-retratos de tempos felizes. Não demorou para que o interfone tocasse. “Clara.” “Sobe.” Respirou fundo diante do espelho e mandou os óculos na penteadeira. Na porta, linda e indecente, com vestidinho verde em rendas, colado, salto alto e garrafa de champanhe em uma das mãos, a bela parceira de sala no edifício da Avenida Prudente de Morais era um só sorriso. “Entra”, ele disse. Não se ouviu mais palavra. Atracaram-se ali mesmo com apetite voraz. Despudoradamente, amaram-se noite adentro.

Manhã de céu azul luminoso. Surpresa. A ex-mulher entrou sem fazer barulho para buscar roupas e alguns objetos deixados para trás. Queria também ver como estava o marido, esfrangalhado, depois de fora descomunal. Teve o coração aos pulos quando, pela fresta, viu o marido feliz dormindo no colo da bela loura de olhos azuis. Sorriam sono profundo no aconchego da cama comprada por ela.

Jefferson da Fonseca Coutinho - Vida Bandida - 17 de outubro de 2009

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