Vincent - Um solo de amor

sábado, 10 de outubro de 2009

Feliz aniversário, Aracélia!

"Distribuiu sorrisos na lotação. Sentiu-se charmosa até, como nunca em toda a vida. Acreditou ter chamado a atenção de dois ou três machos de pé, seguros nas varas de aço do carrão azul"



Não fosse o vento a assoviar na janela, seria mais um dia como outro qualquer na vida de Aracélia. Desde que foi deixada no altar pelo Antero, há 14 anos, na igrejinha de Santa Luzia, aprendeu a não esperar muito do tempo. E, assim, os meses se iam, juntados no galope, sem mais nem porquê. No entanto, naquela manhã de aniversário, a solteirona levantou mais cedo para cuidar das plantas e preparar café caprichado para si mesma. Sem pai nem mãe ou companhia de qualquer espécie, não se importou com a solidão na casinha branca do Bairro Paraíso. Feliz pelo instante, comeu broa de fubá e bebeu café amargo como a mais faminta entre os mortais. Soprou vela barata com sorriso bonito, de criança.

Hora de ir para o trabalho. Havia muito a fazer pelo “seu” Danilo, dono da autoescola do outro lado da cidade. Secretária por talento e vocação, Aracélia sempre foi exemplo de comprometimento. Logo que terminou o curso de jornalismo em importante instituição privada, conquistou na raça vaga no universo dos negócios. Acabou tomando gosto pelo batente e pela conversa mole do patrão. Estreou vestidinho novo, comprado na liquidação, passou batom pastel e gostou de seus 46 anos, luminosos, refletidos no espelho. Envelhecia bem a infeliz. Trancou a casa e seguiu para tomar ônibus até a estação do metrô.

Distribuiu sorrisos na lotação. Sentiu-se charmosa até, como nunca em toda a vida. Acreditou ter chamado a atenção de dois ou três machos de pé, seguros nas varas de aço do carrão azul. Respirou fundo sentada à janela e dedilhou a medalhinha de Santo Antônio no pescoço. Com os olhinhos brilhantes por trás dos óculos de míope, Aracélia enxergou graça até naquele trecho horroroso da Avenida dos Andradas. Ponto à vista, deu sinal para deixar o busão. No caminho até a porta de saída, roçava o quadril na cintura do moço de gravata vermelha quando o motorista teve que pisar no freio. Susto no coletivo. No tranco, encaixe indecente. Envergonhada, ela se desculpou apenas, sem olhar para trás.

Desceu na estação para tomar o metrô. Atrás da faixa de segurança, ainda ruborizada pela microaventura no colo do estranho, viu o apontar do trem. Entrou no último vagão, vazio. De repente, como num sonho desses de cinema, apenas ela e o moço da gravata vermelha. Beliscou-se discreta para ver se estava acordada. Sorriram-se mudos. Aracélia decidiu dar voz aos instintos, presente de aniversário, e deixou na cadeira a razão. Abraçou o cidadão como se fosse o último de todos os homens e mandou-lhe ver a língua indecente na boca. As mãos, duas garras poderosas, rasgaram roupas e engalfinharam a pele.

Uma loucura. Aracélia só parou quando, abraçada ao mastro de apoio do trem, sozinha, ouviu do agente barrigudo da CBTU: “Minha senhora... está tudo bem?”.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 10 de outubro de 2009

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