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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Os vícios do amor



Contra as agruras do amor, para o Dioclésio, não havia melhor remédio que a culpa. Sentimento doído, mas capaz de milagres. O tal desconcerto salvou-lhe a vida a dois. Há mais de 20 anos, é ela, a culpa, a responsável pelo sucesso do seu enlace. O comerciante se lembra bem da primeira vez que experimentou dose do que virou vício.

Foi logo na crise dos dois anos com a Margarida. No casamento começou a faltar paciência, companheirismo, tesão... Dioclésio começou a reclamar da parceira com amigo mais velho, experiente, vivido. Com convicção, foi aconselhado: “Uma amante! É isso mesmo. Uma amante!” Aquilo soou provocação irresponsável, coisa de moleque. Dioclésio chegou a ficar puto com o Nicolau. “Grande amigo você, hein Nicolau!? Te digo que o meu casamento tá indo pro brejo e você me manda arrumá outra mulé, rapá!?”

Ofendido, não rendeu assunto. Contudo, ficou com aquilo na cabeça. Na lanchonete, ao lado da lojinha, durante pausa para o café, bateu os olhos nos quadris da balconista com olhos esfomeados. O moço em crise desejou muito a atendente da bunda gorda. Comedido, jogou charme e foi correspondido. Escreveu o número do celular num guardanapo e entregou para a bunduda, que ligou sem demora. Ele estava ao lado da mulher quando o telefone tocou. Atendeu sem saber quem era.

Do outro lado da linha, voz adocicada, cheia de intenções. Dioclésio perdeu o rumo. Não podia falar. Fingiu que era engano e desligou. A moça ligou novamente. Nervoso, com cara de quem estava fazendo algo de muito errado, deixou o aparelho cair diante de Margarida, que não notou a falta de jeito e graça do marido. Ele balbuciou bobagem qualquer e desligou o celular. Na cama, já sentia os efeitos da culpa e se aconchegou ao corpo da companheira. Aquilo deu-lhe uma quentura boa nas vísceras. E ele dormiu sorrindo.

No dia seguinte, novo flerte: a balconista deu mole quando lamentou não ter conseguido falar com ele na noite passada. Dioclésio se desculpou e, firme, caiu matando. Era dia de jogar sinuca com os amigos do trabalho. Tinha boa desculpa para dar em casa e, pela primeira vez em dois anos, decidiu dar um salto no cercado. Com álibi perfeito, nem precisou pensar demais. Marcou com a moça quatro esquinas dali, no fim do expediente.

Motelzinho na Praça Sete. Ela de vermelho: boca, unhas e corpete... indecente. Nele, tudo muito tímido e sem graça no princípio. “Quer ver TV?”, Dioclésio puxou assunto. “A tevê aqui ó”, ela respondeu agarrando-lhe pelos cabelos grisalhos… aí, aconteceu o diabo entre os dois. Parecia filme de sacanagem. A balconista insandecida deixou as paredes do lugar envergonhadas.

O comerciante, aos cacos no quadril, ficou menos tempo ali, com a outra, do que ficaria com os amigos no bilhar. Chegou mais cedo em casa, com flores até. Olhou fundo a companheira como há muito não fazia. No peito, a danada da culpa. Dali por diante, o amor ele guarda só para a Margarida. Já o sexo, surrado, ele trata às avessas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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