Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Melina do quadril torto

A noiva, Melina, andava fazendo a festa com o padrinho, colega de infância do noivo. Horas de suor e ritmo em quebradas e cantos às escuras. “Ai, não dou conta... vem cá, meu pecado!”, gemia, ao menos duas vezes por semana, em segredo de morte. Com o noivo, Altamir, sujeito discreto e cheio da grana, Melina apenas armava esquema para sair de casa. Vez por outra, sarro comedido e “amorzinho” burocrático.

O futuro marido era sujeito delicado e companheiro. Empresário do ramo da construção civil. Merecia cada centavo acumulado. Tudo fruto de muito trabalho, somado ao patrimônio herdado do pai empreendedor. Já o chegado traíra, aos 30 anos, vivia na boa, só mamando na pensão da mãe entrevada. Passou por três faculdades sem concluir curso algum. Convidado para padrinho pelo amigo, aceitou sem fazer cerimônia.

A moça, beiço fino. Queria do bom e do melhor: até lua-de-mel na África – porque disseram que era chique e dava sorte. Apartamentão na Zona Sul. Vestido, farra, tudo. E o noivo bancou até a festa – o amor é cego, manco e custa caro. Fazer o quê? Um ano a trairagem. Foi o que durou: 11 meses e 23 dias. Não fosse por um desses desencontros do acaso. Na véspera do casamento, Altamir deixa a noiva em casa. Tarde da noite. Ela esquece algo no carro. Uma bolsa.

Poucos quarteirões depois, ele dá meia volta. Documentos, chaves, afinal, Melina cabeça de vento podia precisar. Foi quando, na esquina deserta da casa da sogra, para sua maior surpresa e decepção, ele vê a futura mulher entrando no carro do companheirão de infância. Seguiu os dois. Motel. Chuva fina na boca da madrugada. Por duas horas ficou ali, à margem da rodovia, ao som do limpador de pára-brisa. Repensou a vida. Os cinco anos de namoro e o tudo que sentia pelo amigo. Pensou em invadir, matar, fazer e acontecer.

Sem perder a cabeça, esperou até que saíssem. Acompanhou o percurso da volta e viu quando o camarada e padrinho deixou a mulher noiva na esquina. Mordido de ciúmes, sem ação, assistiu ao último balaço ardente no carro. E pôde vê-la, sorridente, entrando em casa. Rodou a cidade sem rumo e amanheceu em claro. Tomou banho gelado. Manteve-se inabalável até a hora do casamento. Igreja lotada. Convidados ilustres. Padre, honrarias, o escambau. Ele esperou até que ela, linda, chegasse ao altar, entregue pelo sogro gentil e inocente.

Na maior classe, lisura e educação, ali, diante de todos, na hora do sim, o noivo Altamir desmascarou a noiva e o pilantra. Aproveitou o silêncio de morte, tomou o microfone da mão do padre afeminado e mandou ver: “E a comemoração tá de pé! A festa é minha, o dinheiro é meu! Tenho muito o que comemorar!”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

Nenhum comentário: