Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A dança dos viúvos


Sem culpa a noite daqueles dois: Margarida, sofrida, vivida; Josué, simples, calejado. Ambos solitários, cada qual no seu vazio a dois – dissabor da gente de infelicidade. Era fim de festa de casamento de amigo comum. Estranhos no salão improvisado para uma dúzia de convidados. Sóbrios, trocaram olhares tristes, profundos. Ele vai até ela. E, por motivação desmedida, convite para bailar.

Pista de cimento grosso vazia. Música lenta, melosa. Josué e Margarida dançaram. Na falta do sentido vindo da razão, um beijo. As mãos fortes dele seguraram-na pelos quadris. Ela, delicada, sem pressa, percorreu-lhe as costas e a nuca – tocou-lhe a alma com o peso dos dedos cansados, anelados. Ficaram ali, até que o resto partisse. Salão deserto. Silêncio. Fim de comemoração sem graça. Os dois, únicos, grudados, em longo balaço à meia-luz do poste infestado de insetos voadores.

Madrugada. Rua feia de periferia. Carro estacionado. O dele. O opala, aos cacarecos, ganhou a cena, luminoso, quando ele abriu a porta empenada para ela. Debaixo do banco, toca-fita de bandeja. Engatou o aparelho que, sintonizado em emissora popular, soprou música romântica de novela. Embevecidos, os dois não trocaram palavra – mal lhes cabia o desejo ardente, implacável.

O drive-in popular também ganhou ares cinco estrelas ao receber a lata velha de Josué e Margarida, amantes. Motor desligado. Assentos arriados. Enquanto ele desnudava-lhe o seio, ela pensou as nuvens. Mãos, lábios e quadris... O céu em pedaços. De corpos suados, sobrepostos, num suspiro profundo, o prazer. Uma, duas... Três vezes... Em restos, exauridos, só a respiração. Ladeados, em repouso, tocaram fogo num cigarro. Juntos, dividiram o mata-rato.

O sol que nascia tímido clareava o cômodo barato, miúdo, pelas frestas do portão enferrujado. E só naquele instante, vestidos pela metade, emudecidos, perceberam nas mãos dadas o brilho fosco das alianças. Dois dedos anelados, esquerdos, ocupados de passado. Na cabeça de Josué e de Margarida, a noite longa de madrugada eterna. Bolas de fumaça. Hora de retomar o prumo.

Ele catou no bolso da calça o dinheiro e pagou a estada ao velho banguela. Guardados em pensamentos, continuaram sem palavras. Seguiram a esmo no carrão. Num sinal fechado, na Avenida Amazonas, sem telefones, endereços ou promessas, ela respirou fundo e abriu a porta de lata. Sinal aberto, ele vai embora.

Dali, o homem seguiu para o Hospital de Pronto-Socorro. Precisava ver a mulher muito doente, mantida por aparelhos. A outra, sem olhar para trás, desceu a Rua da Bahia para esperar lotação. Pensava ir para casa e cuidar do marido entrevado, pela hora da morte. Naquela manhã, Josué e Margarida ficaram viúvos.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

2 comentários:

Eduardo Murta disse...

A velha maestria para tomar o leitor pelas mãos e fazê-lo passear pela história, velho Jeff

JFC disse...

Eduardo Murta, amigo, escritor, irmão de muitas histórias... ler vc, aqui, neste quintal, alimenta a vontade de crescer e ter a sua habilidade com as palavras. Meu carinho, meu respeito e minha admiração. Obrigado pela visita!