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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Festa de descasamento


Hilário e Bernadete até que foram mais ou menos felizes. Por exatos 37 meses. Os dois anos de namoro, então, foram uma beleza. Depois, com o casamento, é que a coisa desandou. Aí, foi um pega pra capar sem precedentes. O amor virou amizade e a amizade acabou costume. “Não dá mais. Sou de outro!”, disse na lata a mulher, já enrabichada com fulano qualquer. “Como assim?”, ele quis saber, já que pensou ser para sempre. Naquela noite de rompimento não teve mais conversa. Foi um chororô sem fim madrugada adentro. Um em cada canto da casa. Ele, no quarto do corredor, pensava em como fazer para viver sem ela. Ela, na suíte de casal, aos soluços, pensando no que ia dizer para o papai e para a mamãe, católicos tradicionais e honestos. Fim do enlace. Cada um seguiu seu rumo sem olhar para trás. É preciso ser assim entre adultos de juízo.

Contudo, feridas abertas, a separação foi bastante doída. Ela queria se ver logo, o quanto antes, livre do nome do sujeito. Já ele, não teve pressa: “Vai que um dia ela volta”. Bem típico dos rejeitados mais tolos. Não. Ela não voltaria. Já não havia mais nada em comum entre os dois. Melhor para o Hilário que conheceu Maria. O que havia de melhor e mais interessante em Bernadete parecia até defeito em Maria. Moça boa para toda a vida estava ali, tão perto, na mesa ao lado da repartição. Demorou até para o Hilário acreditar que merecia tanto. “Meu Deus!”, pensou alto, logo na primeira noite que saíram juntos. Ele foi bastante sincero quando aceitou o convite: “Melhor não. Ainda tenho a diaba na cabeça”. Maria foi implacável: “Sei bem como juntar os seus cacos”. Não só sabia como o fez inteiro depois de bom prato de massa e garrafa de vinho chileno.

Hilário nem se lembrava mais o que era carinho. Maria já gostava do moço havia tempo. Tanto que nem escondeu contentamento quando soube da separação. Ainda assim, esperou quase mês para tentar conquistar o sujeito. Na noite do jantar, em Santa Tereza, preparou cenário de cinema. Na manhã seguinte, Bernadete e o amante já eram poeira nas ideias de Hilário. Foi a pé para o trabalho para ter tempo de repensar a vida. Passou em flora requintada na Floresta e dobrou a esquina do escritório. Lá, na frente de todos os companheiros de departamento, deu flores e fez declaração ao novo amor. O casal conseguiu semana antecipada de férias com o chefe gente boa e seguiu para pousadinha em Santa Catarina. Foram dias de futuro e aconchego. Hilário e Maria se divertiram, se coisaram e se quiseram muito e mais. “Engraçado o destino”, suspirava o moço, enquanto Maria dormia sorrindo, exausta, com a cabeça em seu peito.

A ideia veio num estalo, por ocasião da data da assinatura do divórcio conhecida pelo telefone: “Claro! Uma festa! É isso! Uma festa!”. Hilário, felicíssimo, decidiu dar um baile de arromba para comemorar o fim do imbróglio com a Bernadete. Raspou todas as economias da caderneta de poupança, contratou o mesmo cerimonial de seu casamento e repetiu a farra para 500 convidados, no mesmo casarão de eventos em Nova Lima. Até os mais chegados da ex-mulher ele fez questão de chamar. Passou a noite nos braços de familiares e amigos para amanhecer para sempre dentro de Maria.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 1º/8/11

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