Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

No rastro dos garotos sem juízo


Sou homem do volante e posso dizer de carteira: há um prazer fora de comum no mundo das rodas. Basta dizer que, para os homens, são os carrinhos, ao lado da bola, os brinquedos mais populares desde os tempos de berço. Os meses se somam aos anos e, na maioria das vezes, os efeitos dos automóveis de mentira ganham raízes para toda a vida. O Wanderley, companheiro de praça, cinquentão, que o diga: desde moleque cuida de coleção de centenas de miniaturas de carrinhos de todos os modelos, cores e tamanhos. Há muito tempo quero escrever sobre a paixão do homem pelos carros, mas outros assuntos mais urgentes vivem a ocupar-me as linhas. No último domingo, Dia dos Pais, depois de conversa em família com amigo policial sobre duas Ferraris apreendidas pela Receita Federal, decidi dedicar folha de papel pautado ao tema.

Meu amigo, primo, que aqui vamos chamar Mustafá, está no rastro de alguns garotos ricos que andam pintando e bordando nas noites, em alta velocidade, por avenidas de Belo Horizonte. Especialmente, na Nossa Senhora do Carmo, sentido Belvedere. Sei bem do que ele disse. Eu mesmo, nas últimas semanas, já fui cortado várias vezes por carrões importados em altíssimas velocidades ali, nas proximidades do Bairro Sion. Mustafá disse que não vai sossegar enquanto não ajudar a enquadrar essa garotada irresponsável que desrespeita as leis de trânsito, colocando em risco a vida dos outros. “Quer correr? Vai ser profissional nas pistas próprias para isso. O país está mesmo precisando de bons pilotos. Mas nas estradas e vias urbanas é que não dá para ser”, disse inflamado o Mustafá, homem das leis e das boas regras.

A conversa foi tema do dia porque todos na casa do pai do Mustafá estavam encucados com o mistério das duas Ferraris clonadas, de documento único, que estavam circulando em Belo Horizonte. “Tenho certeza, Josiel, de que não são de um único dono. O documento é um só, mas um bacana clonou outro bacana, pode estar certo. Você não é capaz de imaginar o que esse povo cheio da nota, que não tem mais onde colocar dinheiro, é capaz de fazer para ter um carrão desse. É como um vício para muita gente. Eles disputam entre eles quem é capaz de ter mais ou de fazer a maior loucura. Mania da gente rica, maluca por superesportivos. Vai além da nossa imaginação. Isso está muito distante do nosso mundo, pobres mortais que somos. Sei como este povo é porque já tive oportunidade de conversar com alguns. São inacreditáveis. É assunto sem fim para a Receita Federal”, afirmou o experiente homem da lei.

A conversa rendeu e o que pareceu comum à toda família presente é que gostar de carro não é problema nenhum. Todos os homens presentes – 14 pais e filhos – são grandes apreciadores de carros. O Wanderley, por exemplo, tem 27 Ferraris muito bem cuidadas na palma da mão. A questão é a ilegalidade. E o mais grave: os malucos e imprudentes playboys que pisam fundo no acelerador, transformando suas máquinas em armas letais em potencial. Para o Mustafá, investigador desde 1990, gente assim é tão criminosa quanto qualquer outro condenado a ver o sol nascer quadrado. “Lugar de bandido, pobre ou rico, é na cadeia. Tem que ser assim. Mas neste país, o que se vê, na maioria dos casos, é a impunidade”, indigna-se o bom policial. Está certo o Mustafá. Carro mata. Não é brinquedo. Só a bela coleção do Wanderley.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 17/8/11

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

É Josiel, Eu acredito muito nas boas intenções do seu amigo investigador. Ao mesmo tempo me compadeço com o esforço dele, pois sei que vai fundo na investigação, prender algumas pessoas, mas o problema será quando o inquérito for parar na justiça. Alí, como disse o saudoso Fernando Sabino: para os pobres, dura lex, sed lex (a lei é dura mas é lei). Para os ricos, dura lex, sed latex (a lei é dura mas espicha). Hoje mesmo estava lendo a reportagem sobre um bacana que matou uma mulher em São Paulo em um porsche a 150km por hora dentro da cidade. Acho que vai dar em nada. Abraços. Paz e bem.