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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A viagem da mãe morta


Aconteceu de a mãe do Kiko morrer com ele em cana por crime besta. Por absoluta falta de juízo e má influência, o trocador desempregado topou parada errada e invadiu casa de bacana em condomínio de afortunados. Azar de principiante, Kiko e seus comparsas foram escolher logo a residência de casal de empresários com relações muito estreitas na polícia. Não podia terminar diferente. Dias depois do assalto: cadeia. O bando ainda nem havia repartido o “lucro” quando foi grampeado.

A mãe do Kiko, dona Jandira, não se conformou com a notícia: “Meu filho! Não! Não é possível”, chorou tristíssima, no interior, ao saber da má conduta do rebento. Por ocasião da condenação, em Belo Horizonte, a artesã estava presente. Viu quando seu moleque, de 23 anos, cabisbaixo, chorou de vergonha e arrependimento. “A vida é dura, dona Jandira. Quem anda errado, mais cedo ou mais tarde, aqui ou do lado de lá, acaba acertando suas contas. Seu menino em breve vai voltar pra casa. Isso vai fazer bem pra ele, a senhora vai ver. Agora, ele vai ter tempo de pensar na vida”, disse o Assis, advogado parente, homem de regras, verdades e de poucas concessões.

No Vale do Jequitinhonha, com o coração partido, Jandira seguia a moldar suas bonecas de barro. Mesmo a quase mil quilômetros de distância, não deixava de visitar o filho uma vez por mês, sempre no domingo. Na primeira visita, segurou as lágrimas ao ver o moço de cabeça raspada, muito mais magro e sem um dos dentes da frente:

– O que fizeram com você, meu filho?
– Nada, mãe. É muito calor aqui. Cortei o cabelo pra dar menos trabalho.
– E sua boca? Tá machucada...
– Cai. Foi nada não. Escorreguei no pátio.

Aquilo ficou guardado com dona Jandira, que prometeu ao filho, no primeiro domingo de cada mês, ao menos, trazer-lhe um pouco de companhia. E assim, juntaram-se meses até que, de tristeza, talvez, quis o coração da mãe parar de bater à véspera do domingo de agosto. O parente advogado, vizinho, tudo fez para conseguir a liberação do Kiko para velar a mãe. Não conseguiu. Então, em respeito à vontade de dona Jandira, o bom Assis levou ele mesmo o caixão até o presídio. Lá, Kiko teve os 15 minutos mais sofridos de toda a sua vida para se desculpar com a mãe morta.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 22/8/11

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Cadeia não recupera no nosso Brasil, mas esta lição acho que mesmo o mais sanguinário dos bandidos (ou desviados) nunca se esquecerá. Muito bom, Jefferson! Abração. Paz e bem.