Vincent - Um solo de amor

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O tempo das flores

Desde que Antúrio e Margarida tiveram a menina Rosa, os tempos são outros no Bairro Bom Jardim. O casal de funcionários públicos, velhos namorados, foram escolhidos pelo Criador para trilha diferenciada, voltada apenas para o que tem valor no mundo das recompensas. Diferentemente daqueles que podem viver os pecados tão comuns à existência, Antúrio e Margarida têm olhos e intenções voltados para a qualidade de vida da filha Rosa. Rosinha é portadora de doença rara. Uma criança entre centenas de milhares nasce assim, com problema neuromuscular que a impede os movimentos.

De início, lá no fim dos anos 1980, o primeiro encontro de Antúrio e Margarida já anunciava caminho diferente. Foi amor à primeira vista, com poesia e cenário de novela. Em Copacabana, durante o verão. Os pais de Margarida, filhos de cariocas, sempre gostaram muito de visitar a família no Rio de Janeiro. Já Antúrio, mineiro de Poços de Caldas, no Sul de Minas, estava na cidade pela primeira vez. Participava de um grupo em excursão, reunido pelo grêmio do Estadual Central, onde estudava em Belo Horizonte.

Margarida, sentada na pedra, estava a escrever poemas, quando o moço de mesma idade, 18, desgarrado da turma, hipnotizado pelo mar, pensou alto: “Que bonito isso!”. Antúrio não conhecia o mar. Também, timidíssimo, jamais havia namorado na vida. Participou de beijo único numa colega de sala certa vez. “Um desastre”, segundo ele. Nada mais. Ali, diante de toda aquela água bela, o formando do ensino médio – na época chamado segundo grau –, de olhos bem fechados e braços abertos, se encantou com o sopro salgado do vento. Margarida, que, até então, não havia sido notada, também pensou alto: “Bonito isso”. Dali, mais tarde, escreveu: “O menino e o mar”.

Na ocasião, foi ela a puxar assunto: “Você é de Minas?”. Ele respondeu que sim. “Sabia. Toda vez que vejo um garoto imitando o Cristo, de braços abertos, aqui na pedra, penso: “Só pode ser mineiro”. Risos. Falante, Margarida ganhou ali o coração do garoto tímido. Contou-lhe que também morava em Belo Horizonte e que estava na casa dos avós. Trocaram telefones e boas impressões. Não passou mês para que firmassem namoro. O casamento veio oito anos passados, depois de encaminhados no trabalho: ele advogado, ela economista.

A pequena Rosa nasceu em 2001. Com a doença rara da pequeninha, o amor que ambos tinham era muito e aumentou. “Infelizmente, ela não deve completar um ano de vida”, disse o médico, na lata. Em oração, os dois conversaram com Deus e pediram força. Antúrio e Margarida decidiram, então, fazer relógio de flores no quintal da casa, construída no Bairro Bom Jardim, em homenagem a filha. Lá, para a família, as horas passam no tempo das flores. Rosinha vai muito bem, com 10 anos e feliz com o futuro.P.S. Para Leonardo, Márcia e Aninha, aqui, ficam votos de muita força, saúde e alegria.

P.S. Para Leonardo, Márcia e Aninha, aqui, ficam votos de muita força, saúde e alegria

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 8/8/11


Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Que história bonita, Jefferson! E a homenagem também, Abraços. Paz e bem.