Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A árvore da vida


Tenho um nó na cabeça, desde que fui levado pela Violeta para ver um filme muito curioso. O mais intrigante que já vi em toda a minha vida. Desde então, não penso em outra coisa. Caramba! O filme é cabeça demais. Seu realizador, um tal Terrence Malick, é doido além da conta. É admirável a sua visão da existência.

Vimos muita gente deixar o cinema. De fato, não é obra fácil de suportar. Tem ritmo e jogo de imagens muito particulares, daqueles que só os filmes de arte conseguem imprimir. O Adelson vive me zoando: “Você, Josiel, é meio metido a besta. Perde tempo demais com coisa que não é do nosso mundo”. Sinceramente, Adelson, você ainda não me convenceu de nada, de nenhum assunto, sobre o qual conversamos, que não seja do nosso mundo.

Tudo, amigo, absolutamente tudo pertence ao nosso mundo. Para nós, seres pensantes, não há questão que nos proíba a opinião. Alguns passam a vida a filosofar nos botecos. Eu, você sabe, gosto de me embebedar de cinema. E esse “A árvore da Vida” me chapou o melão. Trata-se de uma reflexão teológica e filosófica sobre a existência.

A relação do homem com o pai, com a natureza, com o Criador. A origem davida e seus efeitos, num poema imagético musicado por temas clássicos. O movimento das câmeras e o tratamento das imagens são diferenciais que provocam estranhamento aos que curtem apenas as fitas mais comuns. Um jovem acompanhado por grupo de amigos, não escondeu sua insatisfação com o filme e saiu da sala dizendo: “Sei lá, véi. É artístico demais. Não gostei”.

Há muito tempo ainda, moço, para gostar do que pode parecer estranho. Caro leitor, companheiro fiel de Bandeira Dois, se há uma coisa que a idade traz é a tolerância com o desconhecido. Disso, não tenho dúvidas. O mais incrível é que o filme parece ter sido feito para as minhas convicções mais íntimas e mais sagradas. Na minha cabeça, ainda que miúda, Deus e natureza se confundem na força criadora de todas as coisas.

Nascimento e morte, para mim, são duas partes de um único sistema. O que nos faz crer que nossa vida tem mais valor do que a vida de outro ser vivo qualquer? Luz e sombra, água e fogo, o sim e o não, o céu e a terra. Tudo, acredito, tem a sua razão de ser. O grande desafio é saber lidar com tudo o que se opõe ao que estamos dispostos a acreditar. Recuso-me a fazer render o assunto da religião no mundo com toda a ignorância, com toda a cegueira, que o tema produz.

Em “A árvore da Vida”, na minha mínima compreensão, o sagrado está na força da vida, não no que determinam e fazem regras os homens. Violeta e eu deixamos o cinema com a cabeça nos dois caminhos apresentados por Terrence Malick, Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain e companhia: o da graça e o da natureza. O da graça é o caminho de Jó, o da fé inabalável.

Tudo e qualquer coisa como uma bênção do Criador. Já a natureza, contra a qual é inútil revoltar-se, é o rumo do entendimento de que tudo o que ela produz é para alimentar a si mesma. Todas as nossas boas e más ações fazem parte elementar e têm efeito no movimento do universo. Uma viagem no abismo do infinito? É possível. Contudo, uma única certeza: pensar é a diferença que nos resta. Pensemos, então!

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 24/8/11

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