Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Carne fraca, espírito de porco


Naquela academia de ginástica de luxo, o time de professores era de primeiríssima linhagem. Gente selecionada com critério e sem esquema ou camaradagem. Treinador particular, lá, era tão chique que recebia até nome estrangeiro: personal trainer. Saber da seriedade do lugar foi o que motivou o Silva a pagar verdadeira fortuna por pacote de seis meses para a mulher Martinha. Moça boa, de família humilde, casada com o médico há dois anos, a nova aluna caiu na mão do Almeida, grandalhão metido a galã, com vocação secreta extraordinária para estragar casamentos. “Não sei o que há. O que elas não têm em casa, querem comigo. Fazer o quê?”, disse certa vez, na balada, para amigo cretino. E o Almeida, enganador, cresceu o olho logo que viu a Martinha.

Mas a menina, do lar, embora tenha feito faculdade barata, não era de pouca inteligência ou absoluta falta de noção dos campos movediços da vida. Martinha, logo na primeira semana, percebeu que o Almeida não era tão profissional quanto fingia parecer. Havia algo a mais nos toques do personal. Especialmente, no início dos treinos, durante os alongamentos. Havia uma delicadeza nas mãos do sujeito que estava além do necessário. O treinador não era de falar muito. Por isso, conseguia manter o emprego e seguir em alta conta com o patrão. O que o chefão não sabia é que, na surdina, em mais de ano, o Almeida havia traçado todas as suas alunas casadas.

O casamento da Martinha com o Silva ia muito bem. Não fossem os plantões seguidos do marido, daria para dizer até que a moça vivia num canteiro de flores. O casal, viajado, se entendia desde quando se conheceram em Maceió, há três anos. Capricho do destino em clichê de novela, num dia de sol na praia. Ao avistar pessoa em apuros no mar, Silva, excelente nadador, não pensou duas vezes, caiu n’água num salto. No braço, resgatou a desconhecida. Respiração boca-a-boca profissional, Martinha voltou à vida. Ele, solteirão, aos 38, ela, perdida, aos 27. Ela havia acabado de levar fora de namorado capoeirista. Meses depois do episódio na Praia do Gunga, casório discreto em capelinha da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Casamento engorda, é verdade. Daí a necessidade do personal na academia de luxo. Acima do peso, a Martinha estava ainda mais gostosona. Habilidoso, conhecedor dos segredos do corpo, o Almeida foi provocando na aluna sentimentos obscuros. Carne fraca, espírito de porco. “Só falta agora a oportunidade”, pensava o treinador. Não demorou mês para que ela surgisse: lanchinho em restaurante natural. O maridão não apareceu para buscar a mulher na academia. Haviam marcado jantar e, depois, cineminha. Mas o Silva teve que estender o plantão para atender pedido de chefe amigo. O Almeida não desperdiçou a oportunidade: “Deixo você em casa”, disse o personal à aluna. Para casa que nada. Excitadíssimo, pegou Anel Rodoviário, rumo à quebrada e teve o carro prensado por carreteiro maluco. Presa às ferragens, Martinha engoliu seco quando viu o marido, chefe do Resgate, pronto para salvá-la mais uma vez.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 20/6/11

Nenhum comentário: