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segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Rei da Babilônia


André Heller-Lopes apresenta nova ópera do Palácio da Artes, Nabucco, de Verdi


Em 2013, mundo afora, comemora-se o bicentenário de nascimento de Giuseppe Verdi (1813-1901). Minas Gerais sai na frente e não poupa recursos nem parceiros para produzir Nabucco, clássico em quatro atos do compositor italiano, que conta a história do rei Nabucodonosor, da Babilônia, com estreia marcada para 19 de junho, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Com direção musical e regência de Silvio Viegas, e orçamento na casa de R$ 1 milhão, a ópera envolve os estados de Minas, Amazonas, Rio de Janeiro e São Paulo, além de artistas nacionais e internacionais. A concepção e direção de cena são de André Heller-Lopes, 38 anos, carioca, com doutorado em ópera e carreira de sucesso na Europa. Professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), André destaca a iniciativa de parcerias da Fundação Clóvis Salgado (FCS) e defende que o investimento na cultura por parte do poder público seja valorizado e levado a sério, assim como ocorre nas áreas da educação, da segurança e da saúde. Arte como gênero de primeira necessidade.

“O que está ocorrendo aqui, com a iniciativa da Fundação Clóvis Salgado de fazer com que um trabalho dessa grandeza circule, é o que se vê hoje na Europa. Essa ideia de parceria é a grande chave da ópera internacional. Na Europa, hoje em dia, você tem uma ópera em Madri, que depois é reapresentada em Londres, vai para Varsóvia e segue para Houston, por exemplo. Você tem umas quatro ou cinco casas dividindo os custos de uma grande produção”, explica. Para o diretor, outra grande vantagem é a ampliação do público. Até 2013, Nabucco vai ser vista por mineiros, cariocas, amazonenses e paulistas. André Heller-Lopes chama a atenção ainda para o fato de que montagens de grandes óperas geram trabalho e promovem intercâmbio fundamental para a experiência de artistas e técnicos envolvidos no projeto – cerca de 400 profissionais.

A ascensão do gênero no Brasil é reflexo do bom momento econômico que o país atravessa. “O dinheiro atrai uma certa demanda por excelência. Custa mais, chama mais a atenção. Isso é muito positivo. É o que digo para as pessoas que trabalham comigo: há um investimento alto por parte do Estado e temos que fazer a nossa parte. Acreditar na arte, na cultura, faz toda a diferença. É essa a política pública na qual acredito. Quando você tem um país em crescimento, com mais dinheiro circulando, as pessoas buscam ser mais profissionais, tentam ganhar mais, trabalham ainda mais por reconhecimento. Precisam sobreviver num mercado onde todos querem ser melhores e, com isso, o mundo vai olhar com outros olhos para o Brasil – e isto já está acontecendo. Não somos só o carnaval e o futebol. Somos a Carmen Miranda, o samba, a mulata, a cerveja. Somos todas essas coisas, mas também somos a ópera”, entusiasma-se.

Com os pés no mundo e o olhar voltado para o Brasil, André Heller-Lopes, que recentemente defendeu doutorado junto ao Kings College, de Londres – tese dedicada ao universo operístico brasileiro do século 19 –, fala com paixão pela sua terra: “Aqui se faz ópera. A gente ainda não começou a reconhecer as óperas nacionais como elas merecem. Existem compositores fantásticos. Há poucos dias, ouvi com a filarmônica a obra de Marisa Rezende, uma colega na UFRJ. Há muito tempo não ouvia nada dela com orquestra e é muito bom, muito bonito. Você tem o João Guilherme Ripper e vários grandes brasileiros que compõem”.

Talentos Tendo passado pelo teatro, mas vindo da música, expoente do Rio de Janeiro, onde também foi coordenador de ópera por cinco anos – de 2003 a 2008 –, André Heller-Lopes considera importante o trânsito de profissionais do cinema e da cena teatral pelo mundo operístico: “Muitos deles fazem trabalhos maravilhosos. Sabem bem o que fazem, com uma grande noção de encenação”. No entanto, pontua que a direção de grandes espetáculos, que reúnem profissionais muito especializados, exige um cuidado redobrado com uma série de particularidades, além das marcações de cena, do desenho e da movimentação. “É preciso conhecer muito bem também a música para saber o que dá e o que não dá para ser feito, para conseguir obter o melhor possível de seu elenco”, explica. O professor faz questão de destacar a importância do coro para as óperas de qualidade: “Um erro bem comum é tratar o profissional do coro como funcionário público. O coro é composto por artistas de muito valor. É preciso valorizar o talento e o trabalho desse profissional”.

Se a partir dos anos 1990 surgiu uma geração de cantores extraordinários no Brasil, de uns anos para cá parece ser o momento dos diretores especializados. “Gente que entendeu que havia espaço para trabalhar bem no Brasil. E isso fez com que se buscasse conhecimento lá fora”, ressalta André. Para o diretor, o crescimento da produção de musicais no Brasil também é um fator de fortalecimento da ópera. Elogia versão de Os saltimbancos, realizada este ano pela FCS, com direção de Carlos Gradim, e acredita que trabalhos assim despertam no artista a vontade de trabalhar em busca de conhecimento e qualificação. Por isso considera enriquecedor o diálogo entre os dois gêneros – ópera e musical – e diz que isso é muito bom para o mercado. “Estamos vivendo momento de reinvenção em muitos aspectos da arte. Não tem mais espaço para os velhos chavões. ‘Ah, musical é coisa de americano’; ‘Ah, ópera é coisa da elite’. Não. Esse tempo já passou”, comemora.

Parceria e inspiração

Desde o ano passado Verdi está na pauta da Fundação Clóvis Salgado e de André Heller-Lopes. Por dificuldades de agenda, o projeto Nabucco acabou cedendo espaço para outro trabalho: Andrea Chénier, obra do também italiano Umberto Giordano (1867-1948), apresentada em outubro de 2010 no Palácio das Artes. O diretor, que deixou recentemente o trabalho de formação de jovens intérpretes no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa (“a crise é uma realidade em Portugal”), anuncia um Nabucco moderno, em produção requintada, com raízes clássicas, voltado para o gênero humano, para ele, fonte maior de toda a sua inspiração.

Nabucco, de Giuseppe Verdi
Estreia em 19 de junho, no Grande
Teatro do Palácio das Artes
Direção musical e regência – Silvio Viegas
Concepção e direção de cena – André Heller-Lopes
Cenógrafo – Renato Theobaldo
Figurinos – Marcelo Marques
Iluminador – Fabio Retti
Maquiagem e caracterização – Elizinha Silva

Elenco
Nabucco – Rodrigo Esteves
Abigalille – Eiko Senda
Zaccaria – Savio Sperandio
Fenena – Rita Medeiros
Ismaele – Marcos Paulo
Anna – Fabiola Protzner
Abdallo – Júlio César
Sacerdote – Cristiano Rocha

Estado de Minas - Jefferson da Fonseca Coutinho - 30/4/11

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