Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O filho da noiva


Vera teve o Mateus menina ainda. Mal havia completado 17. Enfrentou o cão quando soube da gravidez por estripulia de amor com o Fabinho, colega de sala de aula. A pior barra foi abandonar a mãe, dona Silvéria, que queria porque queria o aborto: “Vai tirar sim! Vai tirar porque eu não tirei, aí, comi o pão que o diabo amassou, sozinha, com você”. Verinha deitada estava, deitada ficou. De olhos fechados, moída por dentro, continuou ouvindo o vômito da mãe:

“Esse seu namoradinho é que nem o pilantra do seu pai. Vai dar no pé e deixar você na pior. Até hoje tenho que me matar como empregadinha dos outros por covardia. Porque não tive quem me desse apoio, como eu estou dando pra você. Vê se entende, criatura: vai tirar e ficar livre disso pro resto da vida. Isso aí não é brincadeira de boneca não, menina! Tô falando é pro seu bem. Quando você tiver o seu dinheiro, a sua casa, aí, você faz o que bem entender. Mas, aqui, é na minha regra. Vai tirar sim! Tá aqui na mesa o dinheiro e o endereço da clínica que eu arranjei. Procura lá a tal da Dasdor”.

Verinha esperou a mãe, como de costume, cair no sono diante da TV e deixou o barracão do Bairro Rio Branco com a roupa do corpo. Andou a madrugada até tomar lotação rumo a casa de Mércia, gentil professora, que havia assumido a direção de colégio em Vespasiano. Depois de contar o ocorrido, recebeu abraço e silêncio de conforto. Fortalecida pelo apoio da pedagoga, decidiu fazer docinhos para vender na nova escola e dobrar o destino. Tamanho capricho da feitura, não demorou três meses para que o sabor da palha italiana de Vera se espalhasse pela região.

Enquanto isso, no Rio Branco, Fabinho, 19 anos, pai do filho que a garota esperava, corria meio mundo atrás de notícia. Até a cidade de Curvelo o motoboy esquadrinhou depois de ouvir de dona Silvéria: “Deve de tá lá, moleque. Já fez isso antes. Tá na casa da tia que não gosta de mim. Levou o problema pra lá. Melhor assim”. A informação correta veio de uma funcionária da ex-escola da moça. De tanto o garoto insistir, a secretária ligou para Mércia, que permitiu que ela desse ao moço o endereço em Vespasiano. Na mesma noite, na sala de visitas, os dois se acertaram de mãos dadas.

Foi tudo muito rápido. Trabalhador, o casal alugou casinha na mesma rua de Mércia. Lá, os dois jovens foram viver juntos e, sem deixar os estudos, aumentaram a produção dos docinhos. O Fabinho passou a comandar a distribuição. E assim tiveram o pequeno Mateus, que começou a andar cedo, amado e cheio de saúde. Sábado de maio, em igrejinha sem preconceito, com decoração de bom gosto, o mocinho venceu 25 metros de tapete vermelho, levando as alianças dos pais. No último banco, em segredo, vovó Silvéria ouviu muda o burburinho geral: “Não é lindo o filhinho da noiva!?”.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 23/5/11

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