Fantástico - Vai fazer o quê?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Vai entender o amor


Inês estava para completar 45 anos quando o marido a trocou pela estagiária, 25 anos mais jovem. Um pitel de nome Celeste, de boas carnes e pouco juízo. Embora amasse verdadeiramente o Athaíde, Inês não fez barulho, nem carnaval. Chorou em silêncio e recolheu-se em frangalhos, sem permitir que ninguém a dissesse coitada. Mesmo assim, amigas da advogada e colegas mais próximas da repartição comentavam:

– A coisa se repete.
– Homem é previsível demais.
– Ela sofre. Sei que sofre.
– Devia era arrumar um PA.
– É mesmo.
– PA? O que é isso?
– Um pinto amigo. Tá na moda agora.
– Inês não é disso.
– Sempre viveu para a família.
– Que que tem?
– Toda mulher sozinha precisa de um PA.

Mas a Inês, só, não queria saber de outro homem. Decidiu se fortalecer antes de novo envolvimento de qualquer nível ou natureza. Já o Athaíde, cinquentão, estava do jeito que o diabo gosta. Celeste, o novo amor, era uma loucura. A indecência em forma sem conteúdo. Para que conteúdo? Para o que o Athaíde queria ela bem que servia. O sujeito deu até aquela remoçada ridícula, comum aos homens da situação. Mudou o guarda-roupa, fez lipo, novo roach e mandou aparar as bordas da orelha – quis dar jeito no apelido de Dumbo, que o perseguia desde a infância. Também trocou o carro utilitário por um esportivo e foi morar num flat na Savassi. Só para ficar perto de um tal Pátio, lugar preferido da Celeste.

Foi mais de ano de gastança, sexo e diversão. Até na Disney, nos EUA, o casal se divertiu. O Athaíde passou período tão entorpecido que deixou de lado os filhos com a Inês. Inventou viagem de negócios e compromissos sérios que nunca existiram. Tudo para se acabar em cima ou embaixo da Celeste. Até que, numa manhã de domingo das mães, a moça, por telefone, resolveu despachar o coroa: “A gente é muito diferente, bebê”. “Bebê”, foi esse o apelido que o Dumbo ganhou depois das intervenções da cirurgia plástica. “O Alex, meu ex, sabe!? A gente tá ficando de novo. Decidi contar porque ele e eu vamos morar juntos na Austrália... Bebê? Alô... Bebê?”.

Athaíde nem esperou a Celeste encerrar a ligação. Foi às pressas rever a família. No caminho, longo até a Pampulha, sentiu saudades dos carinhos da Inês. Ao chegar na esquina, no casarão do Bairro Ouro Preto, avistou a ex-mulher na varanda. Inês – vai entender o amor – sorriu ao ver seu homem voltar.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 9/5/11

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