Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A casa é sua

Para a atriz e artista plástica Juçara Costta, os mecanismos de incentivo são lentos e burocráticos


Norma Sueli de Souza quer fazer da Casa MAC um espaço de valorização da arte feita em Minas


Em Belo Horizonte, há quem pense além da cultura de botequim que dá fama à cidade. Artistas como Juçara Costta e Norma Sueli de Souza, que abriram as portas de suas casas ao público com sede de arte na capital da cerveja e do tira-gosto. Seja plástica, cênica, literária ou musical. Antiga ou contemporânea. O Juçara Costta Espaço de Arte, no Bairro Serra, e o Instituto Cultural Manoel Antônio de Carvalho (Casa MAC), na Cidade Jardim, juntos, reúnem de tudo um pouco na programação de seus quase mil metros quadrados de área construída. São dois casarões sonhados e pensados para convivência e experiências culturais, onde acervos particulares estão abertos à visitação com dias e horários regulares. Nos espaços múltiplos, desde o ano passado, ocorrem exposições, lançamentos de livros e eventos, shows, encontros de grupos organizados e encenação de espetáculos.

Sem um único centavo do poder público, as duas casas são mantidas com recursos próprios de suas fundadoras – já que o dinheiro de locação para eventos culturais e bilheteria é pouco. Sonhos que, somados, chegaram a custar R$ 1 milhão em seu primeiro ano de existência, apenas com readequação, manutenção e segurança dos imóveis. Não há levantamento ainda do valor estimado de seus acervos (quadros, esculturas, antiguidades, livros e discos), mas os imóveis valem cerca de R$ 5 milhões. Todo o esforço de sobrevivência pela vontade fora do comum das duas empreendedoras – uma arquiteta de interiores, a outra atriz e artista plástica – em contribuir com o cenário artístico cultural da cidade. Norma, a arquiteta e designer, da Casa MAC, quer ir além e, para o segundo semestre, tem intenção ambiciosa de levar a arte de Minas para Nova York.

“AMA – A Arte de Minas na América pretende realizar mostra para divulgar e valorizar a cultura mineira na cidade de Nova York. Dessa forma, oferecer a um público diversificado, nos 15 dias da mostra, a oportunidade de conhecer um pouco das diversas manifestações artístico-culturais de Minas, representadas por artistas de destaque. Com isso, buscamos também promover o trabalho destes artistas no mercado internacional e estimular a reflexão, a partir de debate sobre a importância da cultura na construção da identidade de um povo”, justifica a presidente da Casa MAC. A equipe do projeto AMA, orçado em R$ 2,5 milhões, está em busca de patrocínio.

Entre os artistas envolvidos estão Milton Nascimento, Marcus Viana, Paulo Braga, Toninho Horta, Yuri Popoff, Sérgio Pererê, Juarez Moreira, Maurício Tizumba, Elisa Paraíso, Flávio Henrique, Márcio Borges, Tavinho Moura, a família Falabella (Vanessa, Débora, Cynthia e Rogério), Yara de Novaes, Rui Moreira, Ricardo Wagner, Yara Tupinambá, Petrônio Bax, Carlos Bracher, Ricardo Carvão, Helena Neto, Pedro de Castro, Zé Bento, Marcos Benjamim e GTO. “A expectativa é muito grande, mas a gente ainda precisa fazer com que o projeto ganhe mais força em Minas. O AMA tem sido muito mais falado em Nova York do que aqui”, lamenta.

Diferentemente de Juçara Costta, no Bairro Serra, Norma já não mora mais em sua casa na Cidade Jardim. O belo casarão construído pelo português Manoel Antônio de Carvalho, no início dos anos 1950, há mais de ano está inteiramente à disposição de eventos culturais, com infraestrutura e administração que buscam viabilizar seus custos mínimos – cerca de R$ 30 mil mensais. “Não é fácil. É um sonho que custa caro. Completamos um ano agora e estamos justamente no momento de rever e buscar soluções. Tem que ser possível. Acreditamos no projeto, mas ainda não encontramos a solução financeira para a casa. Estamos trabalhando para levar adiante a ideia de um espaço consolidado, aberto à diversidade e que promova o encontro da arte com o seu público. Acreditamos em parcerias e este é um caminho natural da Casa MAC”, afirma Norma.

Namoro com a arte
Há muito em comum entre os dois espaços além dos sonhos das duas realizadoras. O mesmo namoro com o futuro e a dificuldade de manutenção da Casa MAC é encontrado no Juçara Costta Espaço de Arte. Na Rua Pouso Alto, 199, no Bairro Serra, também é tempo de fazer contas. Em drible constante no assédio das construtoras, que querem levantar um prédio no lugar, Juçara trabalha pesado para tentar manter seu ateliê, galeria, palco e residência, ao menos, até o fim do ano. Os R$ 16 mil mensais, gastos apenas para manter as portas abertas das 14h às 20h, de segunda a sexta-feira, vêm de economias e de muito trabalho com as artes plásticas desde mocinha, aos 17 anos, quando mergulhou na pintura. A artista, aos 59 anos, filha de empresário bem-sucedido no ramo da alimentação, mais madura, mãe e avó, admite que é hora de olhar para a lua com as contas sob controle.

“Vivi muitos processos na arte e na vida. Passei por muitas transformações e mudanças. Sempre acreditei que o produto artístico só alcança sua maturidade com vivências e experiências. Em todos esses anos, fiquei envolvida nesses processos e agora, com a maturidade , veio a necessidade de buscar a outra parte, que é a estruturação e possibilidades de parcerias e ações viáveis ao mercado de arte e cultura”, conta. Força, poder de transformação, na vida, no teatro ou nas artes plásticas, definem bem Juçara. Quem a conhece sabe. Pouco antes de morrer, em 2004, o respeitado poeta, filósofo e professor Moacir Laterza escreveu: “A audácia suprema de Juçara Costta veremos quando numa experiência inédita sua inventividade passar a delimitar sua experiência criativa no campo restrito do próprio corpo. O corpo, já sede de tanta transformação natural, servirá também de mediação para uma nova metamorfose. Não poderia ser revalorizado de maneira mais profunda com os novos elementos que lhe permitem também as potencialidades de uma fala, de uma ‘linguagem’.”

Assim como Norma, da Casa MAC, Juçara abriu as portas de sua propriedade acreditando fazer diferença numa cidade frágil com os assuntos da cultura por parte do poder público. “Depender de leis, de incentivo é tudo muito lento, burocrático. Sou artista, não sei fazer isso. Estou sendo obrigada a aprender, mas não combina com a minha alma”. Pensando assim, a empreendedora buscou apoio e se cercou de mão de obra qualificada para dar sobrevida às suas aspirações. Hoje, seu espaço conta com administração e produção profissionais.

Num esforço concentrado para subsidiar seu centro de cultura, Juçara começou sexta-feira nova temporada do monólogo Júlia e a memória do futuro, de 2007, com texto e direção de Jair Raso. A peça, que aborda retalhos do universo feminino, fica em cartaz no teatrinho intimista da casa – 70 lugares – até 5 de junho. Sextas e sábados, às 21h, com degustação e exposição de bordados, às 20h.

CASA MAC
Rua Eduardo Porto, 612, Cidade Jardim, (31) 2555-5524. De segunda a sexta-feira, das 14h às 19h.

Em cartaz:
. Exposição Entre as montanhas de Minas, com Beth Lírio, Marília Pierazoli (pintura) e Belkiss Diniz (esculturas). Até dia 31.

JUÇARA COSTTA ESPAÇO DE ARTE

Rua Pouso Alto, 199, Serra, (31) 3225-9882. De segunda a sexta-feira, das 14h às 20h.

Em cartaz:
. Júlia e a memória do futuro. Sextas e sábados, às 21h (degustação e exposição às 20h), domingos, às 19h. Ingressos: R$ 30. Até 5 de junho.


Texto e fotos: Jefferson da Fonseca Coutinho

Estado de Minas - EM Cultura

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