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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Coisas do futebol


Não bastasse a maré de desgosto com a mulher Djanira, seu time de paixão tinha que perder o campeonato. “Isso não. Tô cagado de Arara”, lamentou quando o juiz apitou silvo longo, colocando fim ao dissabor de dois tempos. É duro. O Murta se preparou bem cedo para a final. Nem se importou com o esculacho da Djanira, ainda no café da manhã: “Tenho que dizer porque tô que não me aguento. Tô até aqui de agonia com esse seu trabalho. Todo dia, trazendo serviço pra casa. Você tá perdendo a família e nem tá vendo. Tchau! Tô indo pra mamãe”. E saiu pisando duro 23 passos até à casa da frente, da dona Conceição.

No barracão de fundos, o Murta terminou de mastigar o pão dormido e subiu para a laje com vista para a Avenida Vilarinho. Lavou o lugar e ajeitou o bandeirão para que todo mundo soubesse que ali havia um futuro campeão: “É hoje!”, pensava. Subiu com rádio, cadeira, mesinha, churrasqueira elétrica e caixa de isopor abastecida, abarrotada de cerveja, comprada há mais de semana para a ocasião. Lá embaixo, da janela da casa da mãe, a Djanira observava tudo, com pena do maridão: “Coitado”.

O casal, sem filho, não era de todo problema. Havia muito sentimento construído naqueles sete anos de casamento. A questão é que nos últimos tempos o Murta estava trabalhando dobrado em busca de futuro melhor. E o futuro nada. Djanira, atenta, morria de pena do companheiro. A mulher já estava no limite. Entendia absurda tanta ralação. Por isso, nos últimos meses, vivia a espinafrar a situação. Mas o Murta, estóico, estava disposto a encarar as agruras à espera de dias melhores. Tanto que, naquele domingo, não acreditava em mais um desastre do clube do peito: “Hoje, não!”.

A tarde caiu num instante e o Murta lá, com a carne na brasa para ele só. O almoxarife acreditou minuto a minuto da partida. Torceu, saltou, gritou, xingou e, embargado, engoliu seco. Fim de jogo. Buzinaço. Fogos pipocavam no lote e no entorno de Venda Nova. As bandeiras do time vencedor se multiplicavam, enquanto outras, murchas, escorregavam janelas abaixo por meio mundo envergonhado. “Que fiasco”, dizia baixinho, em coro, batalhão entristecido. Murta ainda ficou sentado, com a bandeira dobrada no colo, com o coração e as asinhas de galinha secos na grelha. Virou golo de cerveja quente, na lata, e pensou na companheira, que o observava do basculante.

Suspirou como quem manda embora o diabo e levantou da cadeira num salto. Desceu a escada de madeira e tomou a mulher pela mão na casa da sogra rival, fardada, a soltar foguetes e fazer carnaval. Voraz, Murta entrou com Djanira no barraco para fazer as pazes e esculachar quadril até a madrugada. Exausto, suando bicas, soprou ao teto: “Que futebol que nada!”. Segunda-feira, feliz, Murta decidiu não trabalhar mais dobrado.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 16/5/11
Cruzeiro – Campeão Mineiro de 2011

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Beleza de conto, Jefferson! Você retrata o cotidiano com uma leveza de dar gosto. Meu abraço. Paz e bem.