Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um dia de sombra

“Todo mundo é feito de luz e sombra”, Aloha lia todas as noites. Estava na página 27 do livro de cabeceira, escrito por seu guru indiano. Um tal Osho, que gostava de carro, sexo e diversão – não necessariamente nessa ordem. Luz e sombra. Aloha ensinava também, já que era professora de ioga, das boas. Vinha ajudando muita gente a andar no eixo. E como. Trouxe equilíbrio até aos mais desacertados da família, com conselhos simples, nos almoços na casa da avó. Evitou que muito parente fizesse bobagem. Ainda não tinha 30 anos e era exemplo entre os seus mais sérios. “Aloha é a personificação da paz. Um exemplo”, orgulhava-se o tio-padrinho, Severo, delegado.

Claro – ninguém é de ferro –, Aloha tinha lá suas fraquezas. O trânsito de Belo Horizonte, por exemplo. No entanto, dominava técnicas de bioenergética e sabia respirar como ninguém. Não precisava ir além do cinco na contagem do centramento: 1, 2, 3... pronto. Alinhava-se no sopro, como o mais virtuoso dos samurais. O resto era festa. O namorado, Luan, era o maior fã de Aloha. “Essa pequena é uma loucura”, elogiava. O rapaz, depois que conheceu a professora, até aprumou na vida. Largou as drogas e resolveu ouvir o “vai trabalhar, vagabundo” firme do Severo, tio da moça. Só não conseguiu deixar o reggae – aquele batidinho bom, que vem em ondas.

Com o corpo, Aloha fazia coisas do arco-da-velha. Parecia invertebrada. Tinha jogo de pernas de fazer inveja ao mais experiente contorcionista. Só não sabia voar. Mas de tão leve, pluma, não surpreenderia ninguém selevitasse de repente. A moça não era mesmo de lugar qualquer. Podia bem ser asiática, não fosse a carinha de menina de Minas, do Anchieta. Concentradíssima, arrasava nos estudos e em boas maneiras. Divertia-sehorrores com os fiu-fius dos pedreiros. Ignorava desaforo e até achava graça nos playboys do Chalezinho. “Como é que a Aloha consegue?”, perguntavam as amigas mais inteligentes. Ninguém a entendia. Uma estrela. Um ponto de luz.

Como o mundo, Aloha também era sombra. E no dia em que amanheceu sem sol, uia, puxou até arma branca para o polícia. Foi no trânsito que deixou vazar escuridão. Bebeu além da conta e resolveu encarar o volante. Discussão besta por batidinha leve, bem comum entre os barbeiros, aos borbotões, que fazem e acontecem no gargalo da cidade-garrafa. Embriagada, no breu, muito agressiva – quem diria –, a professora de ioga foi parar na delegacia para prestar declarações. O tio delegado foi avisado. Lá, samurai embestada, Aloha sacou canivete contra o sargento. Algemada, sob a guarda do padrinho linha-dura, a bela acabou dormindo em cana para recobrar o juízo.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 4/4/11

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Genial a criação, Jefferson! Eu li sobre uma professora bêbada que aprontou por aqui. (Ainda comentei com a minha mulher: se uma professora de ioga faz isso, imagine o resto da população!). Abraços.paz e bem.