Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O homem que não amava as mulheres

Desde pequeno, embora filho de boa mãe, Jabiró não curtia o sexo feminino. Não gostava mesmo, de graça. Talvez coisa de outra vida, porque, do dia em que foi plantado no ventre de dona Mocinha em diante, grandes motivos não haviam para o sujeito não gostar de meninas. Em casa, o pai, homem correto, não era lá o que se pode chamar modelo de educação, mas agredir dona Mocinha, isso, o “seu” Joaquim nunca fez. Contudo, toco de gente ainda, Jabiró, filho único, vivia de sentar a mão em quem quer que usasse saia ou não tivesse gogó.

Não. Jabiró não era homossexual. Era estúpido e ignorante demais para levar adiante certas delicadezas. Não gostava das fêmeas, simplesmente. Cresceu avesso àquelas curiosidades tão comuns aos garotos serelepes em fase de descobertas. Quando mocinho, nas férias com a Tia Augusta, em Uberlândia, em casa com sete gatinhas – todas primas de primeiro grau –, Jabiró comandava as brincadeiras. “Vamos brincar de casinha! Por favor, por favor, por favor!!!”, elas pediam em coro. Já Jabiró só queria brincar de Ultraseven e Ultraman. “Vocês são os meus monstros. Aí, eu chego e tenho que vencer todas vocês”, ordenava. E, implacável, vencia.

A farra no Triângulo Mineiro teve fim quando ele machucou para valer a Nanda, filha mais velha da Tia Augusta. Das sete, a lourinha era a maior e mais forte. Três anos mais velha que o primo, numa dessas brincadeiras de Ultraseven e Ultraman, a Nanda resolveu que o monstro ia vencer e deu uma surra daquelas no Jabiró – com direito a soco no olho, telefone e bicudão na parte baixa. Mesmo envergado e com a cara roxa, Jabiró apelou e quebrou uma cadeira na cabeça da menina. Desse dia em diante, o moleque nunca mais voltou a Uberlândia. Por mais de mês, diante do espelho, com o olho esquerdo caído, lembrava da priminha Nanda: “Desgraçada!”.

Jabiró cresceu feio por dentro. Por fora, chegado em puxar ferro e outros cuidados com o corpo, até que atraía a mulherada. Só não gostava de estudar. Sem estudo ou inteligência útil, acabou indo parar nas ruas como tomador de conta de automóveis. Tipo achacador profissa, nas regiões de bares e casas de espetáculos de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Depois do batente, vez por outra, cedia aos olhares de alguma garota para mais tarde sentar-lhe a mão. Até que ano passado, depois de achacar e desacatar um juiz federal em Contagem foi parar no xilindró. Lá, aos 40 anos, virou moça para um tal Jaspion, gigante, chegado num seriado japonês.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 18/4/11

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