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segunda-feira, 11 de abril de 2011

O terrorista de Realengo

O Sheik também foi garoto em Realengo. Passou pela escola e, certamente, acreditou num futuro melhor. Deixou as salas de aula para tocar adiante a vida como outros tantos rapazes de sua idade. Filho adotivo, de comportamento fechado e de poucos amigos, foi viver sozinho em casa herdada do pai. Lá, perturbado – desafio para especialistas de muitas ciências –, mergulhado na rede mundial de computadores, encontrou semelhantes, poder e respeito no plano das idéias. Pesquisador voraz, buscou conhecimento para armar os pensamentos. Sem antecedentes criminais, histórico de vadiagem ou má conduta, ninguém podia apontar Sheik indivíduo do mal. Impossível saber o muito ou o pouco que havia em seu coração.

Menino ainda, anos atrás, Sheik achou bonito o que fizeram num tal 11 de setembro, no estrangeiro. Aquilo o impressionou para burro. Tanto que passou anos querendo atentar contra o monumento Redentor, de braços abertos, na cidade maravilhosa. Chegou a lançar aviões de papel, já que os outros custavam caros demais. Pensando no Cristo, o Sheik, sem querer, é claro, acabou por se distanciar de Deus. Depois que perdeu a mãe, então. Passava horas diante da sepultura de dona Dilcéa, no Murundu, na saudade do seu abraço. Imaginou-se ali, junto à cova, para a eternidade. Como? Já que saúde física não lhe faltava e esbanjava vigor de jovem soldado pronto para a guerra. Moleque, porém, decidiu tornar-se homem. Mas ninguém se faz homem da noite para o dia e Sheik resolveu deixar a barba crescer, assim, até o peito. Mesmo rala, meio de menino, meio de senhor, conseguiu chamar alguma atenção.

Homem feito, vez por outra, o sujeito de Realengo passava retalhos de tempo a recordar o passado: sua escola municipal e coleguinhas uniformizados, sorridentes, quase sempre. Falam que, quando aluno, sentia-se rejeitado e intimidado por pessoas de lá. É o que dizem. A verdade trancafiada em Sheik ninguém sabe. Não se tem notícias de conversas dele sobre o assunto. Talvez, quem sabe, alguma verdade anônima lhe tenha escapado pelos dedos em fóruns e salas virtuais da internet. É bem possível até que segredos bem profundos estejam criptografados em seu computador pessoal. Para que continuem secretos, ele incendiou a máquina e tentou não deixar rastos.

Sheik não queria publicidade. Não esse tipo de publicidade. Queria dar ao Brasil e ao mundo o seu espetáculo de horror e medo. “Melhor a morte do que não existir”, pensava. Invisível, comprou revólveres e munição suficiente para encarar seus demônios. Estava disposto a enfrentar o passado e destruir o futuro. Raspou a barba e escreveu oração confusa, em letras de despedida, com pedido de sepultamento e perdão. Condenou os impuros e doou seu único bem aos animais abandonados – estes sim, dignos de sua bondade. Por fim, sorrindo, executou seu plano de terror e de causa vazia: mirar as crianças de Cristo e acertar os filhos de Deus.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 11/4/11

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