Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Defunto sem choro

Chamam de “defunto sem choro”, cadáver largado, que ninguém reclama. Assim como está ocorrendo com o que sobrou do atirador Wellington Menezes de Oliveira, ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, que, ao menos até o fechamento de nossa Bandeira Dois, continua engavetado no IML do Rio de Janeiro. Tentei evitar tocar no assunto. Não deu. Ainda tira-me o sono o massacre em Realengo. Sou pai de família. Meus filhos, a todo instante, pululam os meus pensamentos, o meu juízo, a minha paz. Há dias (e noites) penso nessas crianças que se foram tão tragicamente. Martelam-me a cabeça todas as famílias atingidas pelo atirador-terrorista.

Semanas atrás trouxemos a questão do bullying a este quintal. Na praça, o assunto rendeu e já não aguentava mais ouvir sobre o tema. Aí, ocorre o que o Brasil inteiro, doído, acompanhou. Veio tudo à tona, de novo. “Bullying”. Que triste. É hora de força-tarefa para encerrar de vez a questão. Por amor e pelo futuro de nossas crianças. Não que seja o único fator responsável por mais essa trágica história brasileira. Há muito mais em questão. Certamente, especialistas graúdos ainda vão ter muito a dizer sobre a mente doentia desse jovem de 23 anos.

Em meio as trevas, um ponto de luz. Achei bom exemplo de busca pela paz a atitude de alguns moradores de Realengo, que limparam a pichação na casa da família do criminoso. Está correto. Os irmãos, filhos dos pais adotivos, não têm nada a ver com o que aconteceu. Não podem ser punidos por nada. Tomara que os mais afoitos entendam isso o mais rápido possível para que essa pobre família possa retomar a vida em paz. Já basta a tristeza que vão levar para todo o sempre.

O fato de o corpo do atirador ainda não ter sido reclamado me faz lembrar uma história triste, que me contaram há tempos. O caso de um sujeito beberrão e afastado de Deus, que negou um filho até a morte. Perdido na vida, sem amigos ou parentes, toda vez que era procurado pelo moço tratava-o com o maior descaso. Quem me contou, gente muito íntegra, disse que o rapaz só queria aproximação, amizade e o nome do pai na certidão de nascimento.

O nome no documento, depois de exame de DNA, ele conseguiu na justiça. O tempo passou e o filho sempre por perto, mesmo rejeitado pelo homem. Até que o pai morreu e ficou às moscas no IML. Quando o rapaz soube, foi ele quem fez o reconhecimento do corpo e deu um enterro com mínimo de dignidade ao sujeito. No sepultamento, além dos coveiros, apenas quem me contou e o bom moço, que não derramou uma só lágrima pelo falecido.

O defunto sem choro, largado no Rio de Janeiro, ainda me perturba as ideias. Foram muitas páginas de caderno de papel pautado até conseguir chegar neste ajuntamento de letras. Coragem e força para seguir adiante. É o que desejo aos familiares dessas tantas crianças mortas. Fica a esperança de que dias melhores virão.

Bandeira Dois - Josiel Botelho - 13/4/11

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