
Era só o sujeito beber para esbravejar pedido de DNA. Luísa, tristíssima, não falava palavra e esperava passar a bebedeira. Enquanto isso, as crianças cresciam sob o olhar desconfiado do funcionário público. Joaquim não conseguia dar carinho aos garotos. Nem demonstrava esforço ou boa vontade com o assunto. Tratava-os com distância e frieza. O ciúme anunciava desgraça. Joaquim chegou a listar nomes de conhecidos e amigos próximos de pele e olhos claros. Achava Lucas e Matheus parecidos com Deus e o mundo. Só não conseguia enxergá-los seus. O tempo e a bebida foram endurecendo ainda mais o Joaquim. Para Luísa, madura, beirando os 40, bastava viver para os filhos.
Um telefonema do dentista de Luísa despertou o diabo em Joaquim. Era manhã de sábado. A mulher, às pressas para levar os garotos para apresentação de teatrinho na escola, deixou para trás o celular. Joaquim não acordou para prestigiar Lucas e Matheus em O Rei Leão. Dr. André, educadíssimo, ligou para saber como andava a infecção na gengiva da paciente. Joaquim já andava cismado com o tanto que Luísa ia ao dentista nos últimos tempos. O infeliz não sabia o quanto a mulher sofria com os dentes do siso atravessados. Luísa sabia bem sofrer em silêncio. Endiabrado, Joaquim desligou o telefone decidido a dar cabo no tormento. Já pensava nisso há tempos, desde que comprou revólver com sujeito em boteco perto da rodoviária.
As cortinas do teatrinho ainda não estavam fechadas quando um estampido emudeceu mãe sofrida na plateia. Um único tiro, à queima-roupa. Joaquim, covarde, não ficou para encarar os gêmeos em roupinhas de leões.
Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 7/2/11
Nenhum comentário:
Postar um comentário