Vincent - Um solo de amor

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta aberta ao ator morto

Espero que esta o encontre em paz, finalmente, junto ao Olimpo. Um desabafo, seguido de pedido, talvez. Peço-lhe ao menos um sopro com algumas respostas do lado daí, que tudo sabe, que tudo vê. Saberia me dizer, agora, por que a trupe da condolência é tão maior do que a que comparece quando estamos de pé? Por que tudo é palma, glória e amizade quando sucumbimos? Companheiro, ator morto, que tudo pode saber, por que tanta panela, pequenez e conversa pelos cotovelos? Por que tanta inveja e falta de preparo para lidar com o sucesso, trabalho duro e boa sorte, do outro? Por que tanta bichinha qua-quá, maledicente, a queimar nosso labor?

Do lado de cá, você conhece bem, a coisa toda parece não ter data para mudar. Continuamos de pires na mão a mendigar oportunidade. Seguimos a trabalhar de graça – quando muito pelo lanche – em projetos de TV e cinema. E estes mesmos projetos, infelizmente, continuam emperrados por causa de gente que nem sei o quê. Difícil saber. Sabe, é triste, mas ainda representamos a linha baixa, mais barata, das planilhas orçamentárias. E quando aparece alguém disposto a tentar mudar alguma coisa: “está fora da realidade”. É o que se ouve. Nossos cachês na propaganda continuam aquela mesma mixaria que já ajudou você a pagar a conta de luz algumas vezes, lembra!? Vez por outra, a coisa até melhora, é verdade. A verba aumenta, mas, aí, ainda costumam buscar figuras de outras terras.

A maior campanha de popularização do teatro brasileiro vai muito bem. Por dois meses ganhamos o pão. O resto deste 2011 – já estamos em meados de fevereiro –, dá-se um jeito. Você tem razão, amigo ator, temos as leis de incentivo à cultura. Mas, você também sabe bem que isso é coisa para gente graúda, inteligente, cabeça e muito bem relacionada. A notícia boa é que o cinema de nossas Minas continua promessa. A esperança de nossos cineastas não morre. Tenho fé, ainda vamos vê-los fazendo sucesso e, quem sabe, levando alguns de nossos companheiros Brasil afora. Afinal, o mineiro é tão solidário. Que o diga o ex-vice-presidente José Alencar, herói brasileiro.

Outra questão: você sempre teve grande preocupação com a arte que ensinamos nas escolas. Conversamos algumas vezes sobre isso. Daí, certamente, você bem que podia dar uma força. É duro lidar com tanta gente equivocada, sem compromisso, que costuma aparecer nas salas de aula. Ajudai, amigo, a boa gente de vocação e talento que se mata para aprender o que tantos desperdiçam. Soprai também um pouco de boa vontade aos burocratas que assinam pelas instituições de ensino. De resto, companheiro ator, habitante do Olimpo, vamos bem, vivos, com a graça do Criador.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 14/2/11

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