Vincent - Um solo de amor

terça-feira, 14 de abril de 2009

A senhorinha e a meretriz



Elas têm muito em comum: idade, 29, e rotina de luxo. Uma, a loura, é de muitos. A outra, morena, pertence apenas ao empresário endinheirado e barrigudo. Encontraram-se no consultório do ginecologista da mão de veludo, na Zona Sul da cidade. Na sala de espera chique, olhares e pensamentos cruzados. A secretária da língua solta já havia dado a ficha de uma para a outra. Agora, estavam frente a frente em confortáveis poltronas de couro. O doutor avisou atraso: engarrafamento na Avenida do Contorno.

Escondidas por trás de revistas finas de papel encorpado, as duas só pensavam na história da outra. O figurino alinhadíssimo: roupas de marca, sapatos de salto alto, bolsas raras, compradas no estrangeiro, portadoras de carteiras recheadas de cartões internacionais. A loura cobra R$ 1 mil o programa. Faz média de 15 por mês. A morena, bem casada, recebe mesada de R$ 15 mil do maridão gorducho e generoso. De passado pobre, gostam de perfumes caros e de boa comida. No estacionamento da clínica, dois carrões importados.

Uma, a garota de programa, procuradíssima por afortunados em busca de diversão. A outra, dona-de-casa, visitada vez por outra pelo marido safado, dependente de pilulazinha milagrosa: Viagra. A senhorinha queria novos passos: ser de muitos, afrouxando a cintura. A meretriz também queria novo rumo, cansada da vida de quadril sem dono. Uma quis o que exauria a outra. A morena, debaixo do barrigudo, gostava de ser chamada de puta. A loura, a pedidos, vivia fazendo papel de santa, acompanhante dos marmanjos mais infiéis.

No silêncio das palavras, apenas a música clássica, ambiente. A secretária das tetas agigantadas, no computador, lançava resultados de exames. As duas, na imaginação, invertiam seus papéis. A dama: “Podia ser eu”; a puta: “E se fosse eu?”. Esquadrinharam-se da cabeça aos pés: das jóias aos sapatos. Uma de aliança; a outra, brilhantes nas mãos, apenas. A madame lembrou os roncos do marido. Já a mulher da vida ouvia, como sinos, os gemidos de seus pagantes.

Ambas sem filhos. Ainda não pensavam hora. Cuidavam-se à medida do possível. Estavam ali, à espera do doutor gay, por susto no mês passado: duas camisinhas rompidas. Uma, em tarde de dia de semana. A outra, num sábado à noite, depois de programa de família. Ontem, quinzena de atraso no escorrimento mensal e fortes náuseas prejudicaram o sono em colchão de molas, sob lençóis de seda. Páginas das revistas estacionadas, as duas só pensavam em vidas emprestadas. No momento, rejeitavam qualquer apuro de sorte bandida.

Os R$ 500, de cada, pela consulta, fizeram com que o doutor da mão de veludo se desculpasse sem graça pela meia hora de espera. Primeiro foi a puta. Logo depois, a madame. Saíram de lá grávidas. Só não souberam mães de fetos do mesmo pai barrigudo.

(Jefferson da Fonseca Coutinho – Vida Bandida – 2 de agosto de 2008)

Um comentário:

uai, mundo? disse...

Vim, vi, gostei, voltarei. Paz e bem.