Vincent - Um solo de amor

domingo, 5 de abril de 2009

Adalgisa




O tempo muda as pessoas. Mais cedo ou mais tarde suas medidas já não serão as mesmas. Como disse Bernard Shaw: “De todos os homens que conheço, o mais sensato é o meu alfaiate. Cada vez que vou a ele, toma novamente as minhas medidas. Quanto aos outros, tomam a medida apenas uma vez e pensam que sou sempre do tamanho do seu julgamento”. É. Hoje, sem dúvidas, o Vargas merece nova trena.

O Vargas já foi de amargar. Especialmente com a mulher Adalgisa. Tirou-a de casa ainda garota. Ela não havia completado 16 anos quando, vestida de branco, deixou com ele a igrejinha de Ouro Preto. Casaram-se na cidade histórica para agradar a família endinheirada do noivo comerciante. O fato é que a Adalgisa jamais conheceu o cheiro de outro homem. Já o Vargas vivia perfumado por outras damas.

Fora do casamento, romântico. Um sedutor insaciável. Tratava muitíssimo bem todas suas conquistas: presentes finos e flores. Muitas flores. Já em casa, para a mulher, apenas não deixava faltar mantimentos. Adalgisa não recebia agrados do marido. Mulher de família, do quarto e da cozinha. Mãe exemplar, no sentido mais digno e extraordinário da ocupação, a moça do sorriso de anjo deu ao Vargas nove filhos. Fora quatro perdidos no parto.

“Uma santa!”, era o que todos diziam a respeito da Adalgisa. Não havia quem não se indignasse com as aventuras do marido mulherengo. Certa vez, num carnaval, depois de passar semana de “negócios” em Diamantina, o Vargas voltou tomado de doença venérea das mais bravas. Foi a Adalgisa, mesmo contaminada, quem cuidou das feridas por meses intermináveis. Ele ficou curado. Já ela, por falta de repouso, perdeu o útero.

Teve também a história da prima do Vargas, de Governador Valadares. Por três meses a loura das roupas indecentes ficou hospedada na casa da Adalgisa. Teve tratamento de rainha. Na ocasião, o Vargas encheu a casa de rosas e flores do campo. Passou período dos mais felizes. Chegava mais cedo do trabalho, tomava banho caprichado e vestia suas melhores roupas (passadas e perfumadas pela Adalgisa, claro). Da porta, de mãos dadas com a visitante, avisava aos berros: “Vou levar a prima para conhecer a cidade”.

Passado. Tudo passado. Hoje, aos 72 anos, o Vargas é homem de novas medidas. Mora com três enfermeiros que revezam plantões de 12 horas. Ainda assim, mesmo com todas as dificuldades provocadas pelo mal de Parkinson, todo mês vai ao Cemitério da Saudade levar flores para a Adalgisa. Dizem que, há dez anos, ela morreu sorrindo.

(Jefferson da Fonseca Coutinho – Vida Bandida – 13 de setembro de 2008)

Um comentário:

Diário de Clarinine disse...

Que história! Saõ as mulheres invisiveis, são minhas avós!
Que história!são quantas as Adalgisas por este mundo afora!?
Que hisória! já não bebo deste cálice!