Vincent - Um solo de amor

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O sarro na lotação




O Bertoldo descobriu em vida o sétimo céu. Tinha cabelos longos e ficava atrás de um computador barato entre o sexto e o oitavo andar daquele prédio comercial do Bairro Funcionários. Cavalla. Um mulherão de quase dois metros de altura, de sorriso aberto, boas carnes, coisa e tal. A cavalheira já havia virado a cabeça de todo cidadão-macho da redondeza. No prédio então, a mulher era assunto em tudo o que era roda. Só o Bertoldo evitava comentar. Esquivava-se. Sempre com o silêncio carregado de intenção.


Bem mais que no fundo, em verdade, o Bertoldo alimentava descomunal paixão pela telefonista da C&C Consultoria. Desde que a conheceu na lanchonete da esquina, jamais conseguiu vergar dela os pensamentos. Doente de amor, passou a mapear os horários e itinerários da moça. Inofensivo e discreto, tanto fazia que, vez por outra, conseguia se manter bem perto da gostosona. De segunda-feira a sábado, quando a perdia no almoço, alcançava-a no café. Havia ainda o busão, entre 18h30 e 19h, no final do expediente.


E foi justamente dentro do balaio azul que ocorreria fato que mudaria a vida do auxiliar de escritório. Anoitecer chuvoso, caminho longo de duas quadras até o ponto da lotação. Bertoldo, como de costume, até que esperou pelo avião em saias e batom, mas perdeu-o logo na saída do prédio, no quebrar da esquina. Tristíssimo, seguiu sem rumo, sob as águas, pela Avenida Getúlio Vargas. Tomou coletivo e, no arrocho, com as duas mãos na vara de apoio, sentiu o perfume do mulherão.


Lá estava Cavalla, a pouco mais de três bancos, linda, ensopada em roupas coladas, quase transparentes. Parecia sonho erótico, daqueles em momentos de intimidade e solidão. Bertoldo não precisou fazer muito. Bastou seguir o embalo da passagem para se aninhar àquele corpo raro. E ali, como se fossem um só, esfregaram-se indecentes durante toda a Afonso Pena. O que foi chuva, agora, era suor. Cavalla, sapeca e serelepe, no aproveitamento da situação, acoxambrou o Bertoldo. Não bastasse o chá de nuca e traseiro, ainda mandou ver beijo de novela, antes de descer na Praça Sete.


Abobalhado, ele não conseguiu sair do lugar. Ainda pode vê-la através da janela, feliz, com o sorriso safado, enquanto o motorista careca arrancava. Daquele encontro em diante, cúmplices, dia sim, dia não, tem sarro na lotação.


(Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho - 11 de abril de 2009)

2 comentários:

claudio disse...

Parabéns pelo blog, Jefferson. Não sei se vai lembrar de mim, mas fui seu aluno na Puc, fui o James na Longa Jornada Noite Adentro. Sou seu fã cara, de verdade. Abraços!!!

preço de banana disse...

antes queria conhecer um amor dentro do onibus.. lembrei disso com essa historia! bacana!
sou eu a mik!
bjao querido professor jef