Vincent - Um solo de amor

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Amor sem vergonha


Fim de tarde. Mais um sábado de belo horizonte. Praça Raul Soares reformada, uma beleza. Moças de biquíni recolhem suas cangas. O sol se vai. De mãos dadas, só risos, casal da cabeça prateada se aconchega. Ela, vestidinho azul florido e meias pelas canelas, com os chinelos em dedos. Ele, calça jeans surrada, camisa de malha branca e sandálias de couro. O bigode, grisalho e muito bem aparado. Caminham sem pressa, cheios de assunto e simpatia. Do outro lado do canteiro, a poucos metros dali, um homem de meia-idade lê livro de capa amarela. Lia. Depois de ter sido despertado pela presença dos dois velhos, não conseguiu voltar às páginas do bloco letrado.

O casal se sentou em frente do sujeito. Ignorado, o observador parecia não existir para os dois velhos namorados. Invisível, ficou ali, sem conseguir tirar os olhos da cena de amor explícito. A mulher, muito à vontade e, notadamente, feliz, deixou as havaianinhas no chão, deitou o tronco no colo do homem e dobrou os joelhos, colocando os pés sobre o banco. Ele, com ares de garoto, acolheu a cabeça da companheira, compôs aconhegante base de apoio e mergulhou os dedos na bela cabeça encabelada. Uma paixão só, a dois, sem vergonha. As duas grossas alianças reluziam na penumbra.

O observador, com seus 40 e poucos anos de vida, não pôde ouvir bem o muito que diziam. Gargalhavam em canto. Presente e passado embaraçados, revisitou a própria história. Lembrou-se da mulher em casa, certamente no fogão, como em todo final das tardes de sábado, preparando o jantar da família. Ele não recordou o último passeio que fez com a mulher. "Já com o cachorro saio sempre", disse, envergonhado, para si mesmo. Também não conseguiu saber ao certo quanto tempo havia que não passava a mão em seus cabelos ou que sorriu, menino. "Deve ter sido ano passado", tentou aliviar.

Enquanto passeva com os pensamentos, a dupla da melhor idade permaneceu em namoro. Só a cena não era a mesma. Agora, estavam abraçados de frente. Ela, descalça, fazia ponta com os pezinhos suspensos, assim meio bailarina. Ele, com tronco cavalheiro, envolvia habilidoso a namorada em laço carinhoso. Olhos nos olhos, esquadrinharam o palmo entre suas bocas e beijaram beijo de novela. Cena de filme argentino-espanhol. Foi quando as luzes da praça se acenderam e a fonte jorrou suas águas voadoras. O tempo parecia ter parado em festa aos olhos transformados do observador.

O beijo ainda demorava quando o homem, às pressas, deixou o banco, atravessou a rua e entrou no prédio acinzentado. Subiu cinco andares pelas escadas, abriu a porta do apartamento, ganhou a cozinha e sorriu para a mulher como há muito não fazia.

(Arte: Alexandre Coelho - Vida Bandida - 6 de setembro de 2008 - Jefferson F. Coutinho)

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