Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ninguém é de ninguém



Gente que é gente cuida e precisa de cuidado. Não é proprietário ou propriedade. Não compra ou é comprado. Isso é passado. Coisa daqueles tempos infelizes de ignorância, de coronéis, grilhões e de chibatas. Quando se pretendiam escravos; uma santa em casa e uma puta na rua. Hoje, a história é outra. Tem que respeitar, conquistar com afeição. É tempo de parceria. De encarar tudo lado a lado. Na alegria e na tristeza. Gargalhar sozinho e soluçar no abraço. Enfrentar tormentas: amar e ser amado. Ainda assim, castelo de areia, a coisa pode se desfazer. Fazer o quê? O amor é barco sem rumo, não escolhe destino. Ruiu? Acabou? Pronto. A vida segue. É sacudir a poeira e dar a volta por cima. Não pode ser diferente. Quem vale o encontro, respeita o que deixou para trás. Quem não vale muito vai aprender com o tempo. Quebrar a cabeça até tomar rumo.

O passo é outro, é verdade, para o que se deixa usar e ser usado. Não cobra nem é cobrado. Segue contente, vivendo em corpo alugado. Não quer sonhar nem ser sonhado. Despe-se por qualquer sorriso besta no umedecer dos panos. Por desejo, simplesmente. Precisa mais? Ora veja: morto, o bicho come. Então. Amar para quê? Dá muito trabalho. Querer por querer é melhor que querer sem querer. Tem amor que é assim: não manda recado nem tolera ser rejeitado. Invade e pronto. Finca bandeira no peito do distraído e não aceita ser derrotado. Cega. Até mata quando é matado. Depois fica aí, estampado, em manchetes garrafais nas páginas de polícia. E lá se vai mais um caso passional. É triste. Muito triste.

Há também os que se somam na vadiagem. Que se cheiram. Quem junto não presta nem para ser emprestado. Abusa e é abusado. E sente muito orgulho de ser como é (ou como é parecido, já que nem tudo é o que parece ser. Não é!?). Afinal, a vida é curta e mais vale breve e cheia de aventuras do que longa e afundada na mesmice. Mas… e a pessoa interna que há na pessoa externa? Refiro-me àquela da voz perdida, abafada, que vive conversando com você quando você está sozinho. É fato: muitos de nós somos dois. Um por dentro, outro por fora. O problema é que é preciso ser bem bom das idéias para conviver com isso. No fundo, pode até ser interessante, desde que você se entenda com você mesmo. Mas se você não dá conta de você... quem é que vai dar?

Assim, cada um sendo dois, viver a dois, pode ser viver a quatro (socorro, Lewis Carroll!). Que loucura! Claro! Por isso tanto desentendimento no juntar dos trapos (ou das escovas de dentes, como dizem). Dois ou quatro, uma única certeza: ninguém é de ninguém. O melhor, talvez, seja fazer por onde merecer boa companhia. Alguém, além do nosso outro alguém, para troca justa de respeito e lealdade. Sem essa de “a carne é fraca e o espírito é de porco”. Isso é fala mansa de quem pensa com a cabeça errada. Como escreveu Tennessee Williams em À margem da vida: “Instintos são para os animais”. Racionais? Sabe-se lá o que somos.


(Jefferson da Fonseca Coutinho – Vida Bandida – 11 de outubro de 2008)

Um comentário:

Dani Braga disse...

Não me importa ser de alguém. Ou mesmo não ser. Ou ainda que alguém seja, ou não seja meu. O amor é porto. Isto é certo. O amor é porto... semente que brota até em pedras. A posse não é nada. Mas o amor é porto. O mar... amor.