Vincent - Um solo de amor

sábado, 18 de abril de 2009

Despedida de solteira


Já tinha data para ser feliz. Igreja, salão de festa, o escambau. Vestido feito no corpo e convites distribuídos pelos quatro cantos da cidade. Aos 30 anos, a bela Valquíria, filha do deputado Bezerra, subiria ao altar como sempre sonhou: de véu e grinalda. As amigas estavam ensandecidas: "Uhu!", gritavam em coro, comandadas pela madrinha Salete, unha e carne com a futura senhora. "Sou sua irmã! Irmã!", afirmava Salete. De fato, cresceram grudadas. Com nenhuma outra mulher da família havia tanta intimidade. Estavam juntas por ocasião do primeiro beijo na boca. Uma na outra. Aventura adolescente em tempo ido, no sítio do pai, em Betim.

Era assim: desde então, dos tempos de molecas, cúmplices em tudo. Aonde aparecia uma, lá estava a outra. Entre as duas não havia segredos. Para o casório da Valquíria, Salete tomou a frente de tudo. Deixou a mãe da noiva, dona Dalva, nos calcanhares e escolheu bufê, fotógrafo, orquestra e tudo o mais. O deputado pagante, montado na bufa, nem discutia. "Manda ver!", dizia para tudo o que Salete aprovava. Já a Valquíria, com madrinha tão cheia de iniciativa, pode se dedicar a outros cuidados: banhos de lama, leite e rosas. Massagem disso e mais daquilo, além de tarô, magia e meditação.

Durante os meses de preparativos para o acontecimento, Salete, que já havia se casado quatro vezes, até se mudou para a casa da amiga. Queria acompanhar de perto toda e qualquer providência. "Filho não tenho, graças a Deus! Estou descasada. Fico com você", brindou em restaurante chique com vista para Belo Horizonte. Foi na mesma noite em que convenceu a amiga a ter despedida de solteira para mulher nenhuma botar defeito: "Tem um cara na academia: Beto. É o sujeito mais cafajeste que eu já conheci. Tá para nascer homem que gosta mais de uma esfrega. Arrumo o lugar e ajeito tudo. Bate aqui!".

Na véspera da oficialização no civil, escolheu suíte das mais charmosas em hotel requintado da cidade e preparou festinha de arromba. Velas, incensos, flores, uma beleza. O Beto, olhos vendados, trazido pela Salete, já chegou calibrado por amasso no carro e no elevador. Ficou na sala esperando a noiva. Valquíria, com o coração aos pulos, não queria sair do armário. Por fim, foi convencida de que não se tratava de traição grave, já que ainda não estava casada. "Aproveite, minha filha. Depois, é só o tédio e nada mais", disse ajeitando o figurino sexy da amiga.

A noiva, mais indecente do que nunca, ganhou o ambiente decorado. Tocada por coragem súbita, respirou fundo e decidiu devorar o sujeito-objeto. Salete veio pouco mais tarde, trazendo a champanhe pela metade. Carregava no olhar brilho diferente. Entrou na festa para confessar em prantos: "Eu te amo, Valquíria! Eu te amo!". Juntas como nunca, bailaram os quadris. O Beto ficou de lado. Como caroço de azeitona no prato.

(Arte: Alexandre Coelho - 18 de abril de 2009 - Jefferson da Fonseca Coutinho)


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