Vincent - Um solo de amor

domingo, 5 de abril de 2009

O puxador de carroça


Um pesadelo. O Jaodismar parecia ter vindo ao mundo para pagar pecado. Sobreviveu a duas tentativas de aborto. Na mais traumática, a mãe se jogou na frente de carro da polícia. Por milagre, não escorreu em pedaços pelas pernas da dona desesperada. Onilda nunca quis ter o Jaodismar. O negócio dela era farrear. Era moça facinha, dessas do quadril frouxo. Tanto é que quando soube que estava grávida, listou pai pelo menos cinco sujeitos. Fora a dúzia que ela nem lembrava o nome. Quando Jaodismar escorregou ao mundo, indigente na Santa Casa de Misericórdia, não fez sol por uma semana. Bebê, embrulhado em pano sujo e barato, foi largado debaixo de tempestade em porta de abrigo na Lagoinha.~


Até os sete anos viveu de favor em casa de infelicidades. Foi quando juntou três pertences distribuídos pelo corpo e caiu no mundo. Passou cinco anos na rua, vivendo sob marquises e viadutos. Enfrentou tudo quanto é tipo de frio, fome, abuso, doença e infecção. Contudo, tinha bom coração. Não era bandido. Apenas moço de pouca sorte. Incentivado pelo Roberto, amigo trabalhador, começou a vender latinhas e papel velho. Foram morar juntos em casinha de papelão às margens da Via Expressa. No cômodo improvisado, de três metros quadrados em chão de terra, cinco homens feios e três mulheres fedorentas. Não gostava do cheiro nem dos gemidos soltos no barraco. No fundo, mesmo sem saber exatamente o que isso significava, não queria viver para puxar carroça.


Vez por outra, quando procurado por algum quadril assanhado, até aceitava o movimento indecente. Mas desde que soube que aquilo dava barriga, não se desmanchava dentro das moças porcas. Até queria pensar em uma ou outra, mas não conseguia. Ninguém também pensava em Jaodismar. Era como se não existisse. Como se não passasse de número que engrossa a contagem dos desfavorecidos. De poucas vontades, gostava apenas de ver gente de mentira, feliz nas imagens emprestadas das tevês. De criança nunca gostou. Tinha medo dos monstrinhos chorões e catarrentos que foram se amontoando na vila onde morava. Sempre teve a sensação de que os bacuris do lugar decifravam seus sentimentos.


Homem feito, aos 18, bigode e tudo, passava o dia inteiro puxando carro pesado, abarrotado. De corpo castigado, Jaodismar trabalhava para não ver o tempo passar. À noite, com a carcaça desfalecida, não conseguia fugir dos pensamentos. Por vezes o sono não vinha. Eram muitas as dores. Vivia com os dentes em ferroadas, gengivas em sangue, estômago ferido, veias dilatadas e roupa mijada. O pior estava na alma: tontura que lhe fazia arder os sentidos. No chão duro, forrado por caixa de videogame, não havia lugar de descanso. Da vida sem estudo, um pesadelo. Socorro!!!


Foi quando o Felipe, de 12 anos, em pijama, despertou molhado, em casa bacana do Sion, com o berro da mãe: “Acorda, menino! Tá na hora de ir pra escola. Quer puxar carroça?”


(Jefferson da Fonseca Coutinho – Vida Bandida – 9 de março de 2008)


3 comentários:

cecy disse...

Putz.

Rafo Miranda disse...

Vez ou outra me esqueço do abismo social em que vivemos, manifestações como essa me fazem lembrar. É preciso lembrar, eu diria que é até bom.

Parabéns pelo trabalho eterno tio Jeff

Abraços do seu ex-aluno Rafael lá do Pitágoras Timbiras, aquele baixinho e gordinho.

Anônimo disse...
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