Vincent - Um solo de amor

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Papai Noel no divã



Não é nada fácil vestir-se de Papai Noel. Já estive, sob o sol de verão, dentro daqueles panos quentes e com aquelas barbas longas, artificiais, e posso dizer: é osso. Mas os trajes pesados e o calor são de longe o menor desafio. O pior, o que realmente dói no osso e na alma são os olhares e os pedidos de algumas crianças. Na ocasião do meu disfarce, para distribuir alguns presentes na Escola Municipal José Marcelino, na Barra de Itapemirim, no Espírito Santo, ouvi de mocinho com olhar profundo: “Papai Noel, quero que o meu pai pare de bater na minha mãe”. Aquilo me marcou para sempre. São tempos sonhando com aquele garoto de cabelos curtos, de 5 anos, e olhos negros.

Esta semana, durante encontro com papais noéis, ouvi histórias ainda mais comoventes. Mário de Assis, de 52 anos, Papai Noel desde os anos 1990 e Presidente da Federação das Associações, Pais e Alunos das Escolas Públicas de Minas Gerais (Fapaemg), à frente do Natal do Restaurante Popular de Belo Horizonte, contou-me novas passagens de tirar o sono. Em certa ocasião, uma mãe chegou com uma criança, ambos muito tristes, e pediu ao Mário, caracterizado: “Papai Noel, abraça muito ele. Abraça muito ele, Papai Noel”. Mário abraçou forte o garoto e perguntou a mãe porque eles estavam tão tristes. A dona de casa respondeu que, naquela manhã, o garoto tinha que ser abraçado pelo Papai Noel porque havia apanhando muito do pai durante a noite.

Mário tem outras histórias de partir o coração. Fala de crianças que já chegaram perto dele com pedra de crack na mão, dizendo: “Tira isso de mim, Papai Noel”. Os olhos do meu amigo fazem água ao relembrar momentos assim. Nos últimos anos, todo dezembro, o Papai Noel vivido pelo comerciante e voluntário chega a reunir cinco mil presentes para os pequenos mais carentes. Outro bom sujeito, cheio de histórias é o economista Herbert Feital, de 65, que há quatro anos reforça a renda e promove o bem como Papai Noel de shoppings e eventos. Dos momentos mais doídos, relembra quando uma mocinha, de 5 anos, arrancou-lhe lágrimas: “Ela, doce, sentou-se no meu colo. Perguntei-lhe o que ela queria ganhar de Natal. Ela disse: ‘Quero que meu pai volte pra casa’. Aquilo mexeu muito comigo”, diz.

O Osmar Fonseca, de 52, foi Papai Noel por mais de 10 anos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Parceiro de muitas jornadas, pai de família exemplar, quase não dá conta de tocar no assunto: “Sou fraco, reconheço. Não consegui continuar. Vi crianças felizes com um cachorro-quente e uma bola de plástico de presente, enquanto na minha família, vejo um bando de mal-agradecidos, com presentes da moda, de alta tecnologia. Aquilo me adoeceu. Não dava conta dos meus sobrinhos adolescentes, rebeldes sem causa, explorando e fazendo sofrer meus irmãos que vivem em dificuldades. Na minha casa, juntei dinheiro para o meu filho fazer um curso e ele estava torrando as minhas economias na farra”, desabafa.

O Ismael Luis Machado, de 62, também não foi forte o suficiente para continuar como Papai Noel. O aposentado conta que desistiu da missão no dia em que chegou num barracão de Ribeirão das Neves, na véspera do Natal, e viu uma família inteira com muito pouco o que comer. “Sou safenado. Meu coração não aguenta, Josiel. Eram nove pessoas na família. Uma avó entrevada, um casal e seis criancinhas. Fui recebido com uma alegria que jamais vou esquecer. Não tinha mantimento que dava para o dia, ainda assim eles eram felizes. No fogão, arroz, feijão ralo, farinha e ovo. Foi o almoço de Natal mais emocionante de toda a minha vida”.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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