Vincent - Um solo de amor

domingo, 16 de dezembro de 2012

O menino e o velho



Chiquinho, pequeno que é, não estava dando conta da família: da discórdia entre os irmãos; da bebedeira do pai; do fanatismo religioso da mãe; do tio Luca, preguiçoso, cheio de dívidas; da falta de ação do avô – 24 horas por dia deitado diante do ventilador, comendo chips e tomando café. Um caos o endereço. O menino, aos 6 anos, já não conseguia pregar o olho há tempos, tão incomodado estava com aquele fim de mundo iminente. Até carta de palavra só para o Papai Noel, Chiquinho escreveu: “Socorro!”

Em calças curtas, o moleque não sabia a razão ou o significado das coisas. Tinha, porém, uma convicção: aquilo não era bom. Tentou chamar a atenção dos parentes, mas nada adiantou. Outro dia, com pouco mais de metro, foi para o fogão ferver a água para fazer o café. O avô agradeceu: “Ô minino bão!”. A mãe nem soube. Vivia ocupada demais no quartinho dos fundos, hipnotizada pela programação religiosa na TV.

Numa manhã – sozinho, como de costume –, em vez de ir para a creche, Chiquinho pegou o sentido oposto da Rua 75 e andou sem rumo. Queria qualquer lugar longe. Bem longe. Na mochila, meia dúzia de trapos e o soldadinho de chumbo, presente da professora Marcelle. Andou enquanto havia sol e força nas pernas. Cansado e com fome, já tarde da noite, o menino arranjou calçada sob viaduto para recuperar as forças.

Além da fome e dos trovões, havia ainda o frio – efeito das águas que escorriam dos céus. “Posso me sentar aqui, rapazinho?”, perguntou o homem magro de barbas brancas, catador de latinhas. “Pode, sim senhor”, respondeu Chiquinho, educado. O sujeito sorridente, de roupas surradas e óculos, tinha um cobertor. Rasgou-o quase pela metade e deu a maior parte para Chiquinho. O velho também dividiu a quentinha com o menino. Ali, cheios de assunto, os dois passaram a noite sem reclamar da vida.

E por esses milagres que só a ficção concede, quando o sol voltou a brilhar, Chiquinho acordou em casa, no colo da mãe – aleluia, quem diria –, longe da TV. Ainda febril, olhou bem fundo nos olhos de todos os parentes e, feliz, não os reconheceu. O pai, sóbrio, abraçou o garoto como há muito não fazia. Irmãos, unidos, num só sorriso e o velho Bastião caprichando na decoração de Natal. Já o tio Luca, enrolado... esse, coitado, não teve jeito: continuava preguiçoso e devendo até as cuecas.

Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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