Fantástico - Vai fazer o quê?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

De salto alto



A moça não era nenhuma desgraça. Chapinha no cabelo, calça baixa, daquelas que dá para medir quase um palmo abaixo do umbigo. Cofrinho à vista no traseiro. Oxigenada, com pelinhos quase transparentes. Foi no café da esquina, durante lanche da tarde, que a ajeitadinha falava pelos cotovelos com a amiga de peitões flutuantes:

– Dessa vez me ajeito na vida, minha filha! Tiro o pé da lama!

– Lá é bom assim, é?

– Bom é pouco! Lá é o bicho! Só homem cheio do dindim…

– Sério?

– Num tô falando! Os cara lá só tem carrão… de Audi pra cima… E a roupa do povo lá?

– Chique?

– Só marca fina, de Lourdes. Lá, vi pano que eu nem sabia que existia…

– E os cara? Tudo de terno, é?

– Terno? Põe terno nisso… Cada gravata de uma cor… a homaiada lá é chique demais… que cheiro bom tem homem rico, menina… eu nem sabia… Tava acostumada com o bafo do Zé… credo! Não gosto nem de falá no nome do infeliz. Pobre é uma desgraça, você fala o nome e ele aparece!

– E você já ficô com alguém lá?

– Quase. Tô na cola de um grandão lá… casado. Tem um Volvo. Ele me deu uma carona… Menina, eu fui entrando no carro me deu uma coisa… quase arranquei a roupa… foi uma loucura… a mulher dele do lado… foi subindo um calor… carro importado é chique demais… você já entrou num carro importado?

– Eu? Quem sou eu… Nunca tive essa sorte não…

– Pois vai lá que você vai vê… sua vida vai mudá… a minha já e outra… Num reparô que eu já tô com um jeito assim… de gente chique?

– Tá? Ah… o salto alto, né!? É mesmo, sou meio voada, nem te vi de salto alto…

– Ainda tô aprendendo… não é fácil ficar em cima desse troço…

– Quem te viu, quem te vê, hein?!


E a ajeitadinha, loura, do cofrinho no traseiro, tinha o olhinho até iluminado. Nem se preocupou com a meia dúzia de estranhos na lanchonete, de orelha em pé na conversa. Enquanto roía o pão de queijo e bebia um pingado, buzinava na cabeça da amiga:


– Hoje tem culto, minha filha. Por que você num vai lá?

– Tenho roupa pra ir num lugar desse não…

– Pega um vestido bacana da tua irmã... Olha a hora… Ih, tô atrasadíssima…


Pagaram o café com moedinhas e ganharam o passeio. Atravessaram a movimentada avenida em correria e, num trupicar do salto alto, a mocinha apaixonada por carros de luxo beijou o asfalto. Já no canteiro central, a amiga não teve tempo nem de gritar, quando o jipão BMW engoliu a infeliz.


Vida Bandida - Jefferson da Fonseca Coutinho

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