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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Além do espírito do Natal



Semana daquelas, bem comuns em tempos de Natal. Dezembro é mês que não me desce muito bem. É quando ficam ainda mais acentuadas essa história do consumo desenfreado e da caridade de ocasião. Natal não é tempo de uma época só. Conheço gente aos montes que passa o ano inteiro sem ajudar ninguém e, agora, faz um esforço enorme para aliviar a consciência: dá R$ 10 para a caixinha do seu Zé, porteiro, incansável, sempre pronto para ajudar. Ou, então, pega aquela roupa velha - já sem lugar no armário - e dá para o primeiro pobre de palma da mão para cima, pedinte no sinal. Esses, acima, são dois casos reais, só para exemplificar o parágrafo.

Na praça, também em trânsito entre sujeitos de solidariedade, fico sabendo de coisas de cortar o coração. Crianças, por exemplo, pedindo comida, panelas e roupas em cartinhas para o Papai Noel. É ou não é de doer? Outro dia, conheci um moço dedicado, silencioso, que faz de tudo para ajudar. José Fernandes, de 45, o tio Fernando - como é conhecido entre as crianças, há 7 anos, recebe cartas endereçadas ao Papai Noel e as distribui entre os clientes de seu salão de beleza. Os presentes são entregues durante almoço de confraternização para os pequenos e seus acompanhantes, no dia 23. Este ano, Fernandes recebeu 40 cartinhas para o bom velhinho.

“As que mais chamam a atenção são aquelas cartas com pedidos para que o pai deixe de beber, saúde para a família e cestas básicas, roupas e calçados. É quando você vê que a criança está realmente precisando de ajuda”, diz tio Fernando. O voluntário revela que a vontade de ajudar veio das necessidades vividas por ele. “Minha vida não começou fácil. Senti na pele a falta que essas crianças sentem”.

A costureira Agnália Alves, de 40, liderança na Vila Aparecida, no Bairro São João Batista, Região de Venda Nova, é outra que trabalha o ano inteiro pelo bem dos outros. Ela conta as 26 crianças, “às vezes, 30”, reunidas na escolinha dominical de sua igreja, a Tabernáculo da Restauração. Orgulha-se, com razão, do trabalho desenvolvido na comunidade carente.

Nos limites de Belo Horizonte e Contagem, no Bairro Confisco, outras histórias que embargam a garganta. Lá, teve criança pedindo skate para substituir cadeira de rodas e boneca com cobertor. Sandra Mara de Oliveira, diretora da Escola Municipal Anne Frank, faz um trabalho admirável na região. Ela e equipe de educadores se destacam no acompanhamento diferenciado dos alunos mais carentes. Na Rua 4, perto da escola, conheci a pequena Antônia Ferreira de Souza, de 9. Na porta da casa sem janela, estive com a menina silenciosa, que pediu uma panela de pressão.

O sono não vem e as folhas rabiscadas se acumulam na caderneta de papel pautado. Na cabeça, sorrindo, a imagem da bela atriz e apresentadora de TV, Ana Luisa Alves, madrinha de dezenas de criancinhas de Belo Horizonte. Muitas, portadoras de necessidades especiais, do Projeto Assistencial Novo Céu. A vontade é de abraçar o mundo. O coração é bem maior que o bolso, mas atitude nada tem a ver com dinheiro. As ações de sujeitos como tio Fernando, Agnália, Sandra Mara e Ana Luísa são exemplos da mais nobre solidariedade. Estão além deste dezembro de Natal.

Bandeira Dois - Josiel Botelho

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